Artigo (A Tarde): A arrogância fatal

Dona Lourdes está triste. O contumaz sorriso largo foi substituído pela testa franzida. Ela, que sempre foi loquaz, murmura: “Deputado, a coisa tá preta”. Matriarca de quase 80 anos, não foram poucos os reveses em sua vida. Fugiu da vassoura de bruxa e refez a vida em Salvador, onde mora no Subúrbio Ferroviário. Na vez anterior que a encontrei há alguns anos, ela era só alegria. Conseguira um crédito na Caixa e ampliou a casa, construindo mais uma laje. Mas agora…

“Deputado, eu e minha família votamos nessa moça na esperança de que ela tivesse palavra, mas agora sinto o gosto de fel na boca, pois a conta de luz veio mais que o dobro”, lamenta, soltando a língua: “Meu filho mais novo perdeu o emprego e não está recebendo o seguro. Minha filha mais velha nem dorme. O marido está jurado pelo chefe das drogas e disseram que ela terá dificuldades para receber a pensão, caso o matem. Como vai manter quatro crianças?”.

No semblante vincado pelas marcas do tempo, a angústia de dona Lourdes se es-tampa: “O que está acontecendo, deputado? Estou confusa com tanta mentira. Por que o trem desandou de vez? Não foi só a roubalheira, né?”. Diante de uma vítima do trágico drama que está afligindo todos os brasileiros, busquei explicações que lhe consolassem. “D. Lourdes, não é só a roubalheira. Além das perdas, há a decepção. Todo o mundo está decepcionado e indignado com o show de mentiras e o desfile de ratos ricos e de gravata e até de ratos bichos na televisão”.

“É um verdadeiro espetáculo de arrogância fatal,como diria Hayek, Prêmio Nobel de Economia”, afirmei, para logo esclarecer o que significava essa ideia. “Arrogância fatal é o comportamento de governantes, como esses que estão aí há 12 anos, que não respeitam a vontade nem a opinião dos governados. Acham que podem moldar o futuro segundo os seus planos e preferências.Atropela ma sabedoria alheia.Só creem na sabedoria deles”.

Aproveitei e testei a memória de dona Lourdes: “A senhora lembra aquela frase: nunca antes na história deste país?”. Depois da confirmação, observei que, embora a atual governante e o seu antecessor tenham se beneficiado do Plano Real, medida que livrou o país da hiperinflação e estabilizou a eco-nomia, eles insistem na empulhação de que tudo de bom foi a partir do governo deles, quando o Plano Real foi um feito da gestão de Itamar Franco/Fernando Henrique.

“Mentira tem pernas curtas. A senhora sabe disso”. Relatei a dona Lourdes que Dilma está amargando a herança maldita de Lula e dela mesmo. “Agora ela foi obrigada a dividir o governo em três: ela viaja, o vice faz política e o ministro da Fazenda governa. É o que o povo costuma chamar de ‘casa de Noca’. Todo mundo manda e ninguém dá conta”.

Destaquei que, se fossem menos arrogantes e mais prudentes, respeitariam a vontade das pessoas. Não se meteriam na escolha até da carne para o almoço, favorecendo grandes grupos amigos que monopolizam o setor, controlam os preços, prejudicam os concorrentes menores e nos deixam sem alternativa. “Governo pode no máximo, dona Lourdes, combinar a liberdade e a vontade das pessoas com a pro-teção social. Mais que isso dá enguiço”.

Ponderei para aquela senhora que desconhecia no mundo um lugar onde esse tipo de política dera certo. “Veja a Venezuela. Os estudantes de lá estão sendo presos por falarem mal do governo no Face e no Twitter. E se a moda pega por aqui, meus netos e os seus que se cuidem, dona Lourdes!”, alertei.

“Arrogância fatal, humm”, murmurou dessa vez revelando compreensão e recordou: “Me lembrei do tempo em que morava na roça, quando a peste já começava a fazer seus estragos no cacau, e um fazendeiro de lá, mesmo sendo avisado, continuou na sua gastança sem fazer nada para salvar a lavoura. Hoje tá pior do que eu, vivendo às quedas de bar em bar pelo Baixo Sul”. Pois é, a história está repleta de fracassos quando juntamos a arrogância com a política, dona Lourdes.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde de 14/04/15