Artigo (A Tarde): A banalidade da mentira

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É automática a remissão do título deste artigo ao pensamento da filósofa política Hannah Arendt, que trata da banalidade do mal em seu livro “Eichmann em Jerusalém”. Arendt acompanhou o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em 1962, para a revista americana New Yorker. Ele fora o burocrata responsável pela condenação de milhares de judeus à morte nos campos de concentração.

O monstro que se imaginara ser Eichmann, no entanto, revelou-se à pensadora judia-alemã apenas um funcionário medíocre e arrivista, interessado somente em cumprir sua função com eficiência, incapaz de refletir sobre seus atos hediondos. Tal comportamento dele refletia a transformação pelo nazismo do mal numa banalidade como qualquer outra.

Praticado em larga escala, nas suas mais variadas formas, presente na vida cotidiana como coisa corriqueira, o mal acabou se tornando coisa habitual e ninguém concedeu a ele as devidas atenção e preocupação durante o nazismo. Despojado de seu caráter atemorizante, o mal se banalizou pela frequência da sua prática e pela impunidade dos seus praticantes.

Não seria, então, a banalização da mentira a estratégia petista para a sua manutenção no poder? No Brasil, isso ficou evidente nas últimas eleições, quando, durante a campanha, não houve o mínimo de decoro nas promessas que se confirmaram falsas depois da posse. Desavergonhadamente cometeu-se um verdadeiro estelionato eleitoral contra a jovem democracia brasileira.

Na Bahia, temos sofrido a banalização da mentira desde a posse do ex-governador Jaques Wagner em 2007. O seu sucessor Rui Costa demonstra seguir a mesma toada: forte investimento em propaganda e ações puramente midiáticas. Assim já se passaram 8,5 anos e os baianos a assistir as grandes transformações do estado apenas nas animações computadorizadas feitas para anúncios governamentais veiculados na mídia.

A ponte Salvador-Itaparica mesmo é emblemática. Prometida desde a campanha de Wagner em 2006, até hoje não há nenhum sinal dela na Baía de Todos os Santos, embora muito dinheiro já tenha sido gasto com projetos que ninguém sabe para quê. Mas a famigerada ponte de investimento bilionário sempre reaparece com destaque nas campanhas eleitorais. Foi assim em 2006, 2010 e 2014. Com certeza, volta em 2018.

Quem viu na televisão os trens em movimento não tem dúvida que a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) está transportando milhares de toneladas de ferro para o Porto Sul, em Ilhéus. Se a Fiol não entrou nos trilhos até hoje, com obras paralisadas sem perspectiva de retomada, o terminal portuário que dinamizaria a economia do sul baiano nem sequer saiu do papel.

Terra de grandes ficcionistas da literatura brasileira, a exemplo de Jorge Amado, Adonias Filho e Hélio Pólvora, a região cacaueira, depois da devastação causada pela vassoura-de-bruxa, sofre agora o infortúnio de ser o cenário para muitas das mentiras petistas. Afinal, cadê o novo aeroporto de Ilhéus, o complexo logístico, as duplicações da pista Ilhéus-Itabuna e da ponte do Pontal?

As promessas não cumpridas que se revelaram mentiras deslavadas se espalharam por toda a Bahia. O novo aeroporto de Vitória da Conquista já está em funcionamento, por acaso? E a recuperação do Rio São Francisco, que definha? Cadê a fábrica da Jac Motors em Camaçari? E a duplicação da BR-101, que até hoje só não ocorreu em território baiano? Até fábrica de aviões disseram que iria se instalar aqui.

Pior, não há escrúpulo para divulgar dados inventados que não se sustentam em pesquisas do IBGE, como os do Topa ou os do Água para Todos. A mentira conveniente é o que importa aos governantes petistas descomprometidos em atender as reais necessidades do povo baiano. Assim como a do mal, a banalidade da mentira também se inspira no totalitarismo. Já dizia o nazista Joseph Goebbels, a mentira que se repete vira verdade.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 21 de Julho de 2015