Artigo (A Tarde): A voz que vem das ruas

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Quem segue o caminho da democracia não faz ouvido de mercador à voz que vem das ruas. Tem sido assim desde a Grécia Antiga, onde os cidadãos se reuniam na ágora para ex-pressar os seus anseios, participar e decidir os rumos da comunidade.

Mesmo os tiranos daquela época, que, em situações excepcionais, tinham poderes ilimitados, buscavam representar a vontade do povo. Aqueles que assim não procederam, como os filhos de Pisístrato, acabaram banidos e mortos por usufruir do espaço público como se fosse privado.

Por ser um deputado federal guiado pelos princípios democráticos, não serei eu a fazer pouco caso da voz que vem das ruas. Não foi assim em meu primeiro mandato, quando votei pelo impeachment do presidente Collor. E não será diferente agora 23 anos depois, quando novamente estou em sintonia com a vontade popular.

As manifestações do último domingo retrataram mais uma vez a indignação e a insatisfação popular com um governo que faz ouvido de mercador à voz que vem das ruas desde 2013. Naquele primeiro alerta, promessas feitas não se concretizaram. Vieram as eleições e repetiu-se mais um descaso com a boa fé do povo brasileiro.

Não pudemos esquecer que, nesse período, veio à tona o maior esquema de corrupção da história: o petrolão. E outros estão a espoucar, como o eletrolão e o BNDES. Além da má gestão e o descompromisso com a verdade, assistimos ao estado brasileiro transformar-se num lamaçal repugnante.

“Vox populi, Vox Dei” (Voz do povo, voz de Deus), diz a máxima latina. Então, não me venham com tentativas de reduzir a relevância dessa terceira manifestação popular nacional em oito meses do atual governo, muito maior que as anteriores, mesmo aos olhos dos céticos. O fato foi que milhões de brasileiros estiveram nas ruas.

O movimento cresceu nas capitais e se espalhou pelo interior do Brasil. Em Salvador, fui testemunha, houve incremento de público com relação às manifestações anteriores. Mas alguém procurou saber das multidões que se reuniram, dessa vez, em Feira de Santana, Itabuna, Vitória da Conquista, Jequié e outras cidades da Bahia?

Esses milhões de brasileiros de todas as classes e cores, que deixaram o conforto de seus lares num domingo para exercer a democracia de forma pacífica e ordeira, estavam amparados na Constituição Federal, quando reivindicaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Em nossa Lei Magna, existe esse remédio legal para o desarranjo do presidencialismo. Portanto, não cabe aos portadores da voz que vem das ruas a alcunha de “golpistas”. Muito pelo contrário. O anseio deles é que impere a lei, como deve ser num verdadeiro estado democrático de direito.

Na condição de representante do povo na Câmara Federal, não posso me furtar a seguir o clamor das ruas. Além das evidências legais, que legitimam o impeachment, há o imperativo moral de resgatar a esperança dos brasileiros, tão vilipendiada por aqueles que se diziam seus guardiões.

Vejo, então, a atual ocupante do Palácio do Planalto pronunciando a fala da rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, personagens da obra de Shakespeare, quando batem em sua porta: “Para minha alma doente, a natureza do pecado é assim, cada migalha é um desastre, é o fim. A culpa é cheia de medo escondido, que se trai, com medo de ser traído”.

Na democracia, os palácios não podem ser indevassáveis à voz que vem das ruas. Não é possível fingir que nada está a acontecer. Até para alguém que se esconde a cada alarido e se esquiva de qualquer responsabilidade chega o momento do julgamento, senão pelas urnas, pelo tribunal. O povo soube punir exemplarmente os filhos de Pisístrato.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 18/08/15