Artigo (A Tarde): ACM, paixão pelo novo

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“Diga, Nikita! Mande as ordens”. Assim ACM atendera o telefone na sala de visita de sua residência. O autor da ligação, anunciado pelo mordomo Sebastião, era Fernando Santana. Em plena ditadura militar, a forma amistosa e brincalhona de tratar um comunista, mesmo que “adorável” como o definiu o escritor Antônio Risério, causou estupefação a mim e ao grupo de colegas, quando fomos convidar o então presidente da Eletrobrás para a abertura do Congresso dos Engenheiros Elétricos e Eletrônicos de 1976.

O baiano Fernando Santana ainda estava com os direitos políticos suspensos. ACM era assim, um político sempre pronto para os embates e atencioso com os antagonistas aparentemente irreconciliáveis. Ele sabia magnetizar alguns adversários e caprichava no reconhecimento dos que o ajudavam.

No início de seu terceiro governo (1991), em meu primeiro mandato, fui a uma audiência com ACM para reivindicar por Oliveira dos Brejinhos, onde fora o deputado mais votado. Com prudência, deixei o prefeito Sales na sala de espera e entrei sozinho.

ACM começou falando da importância decisiva do pai de Canetão, adversário do prefeito, para a sua vitória em eleição suplementar que lhe dera seu primeiro mandato. Já sem conter o choro, ele disse que ajudaria o prefeito, mas não abandonaria a família que fora decisiva para o início de sua carreira política.

A capacidade de gestão e o magnetismo dos seus gestos foram uma marca registrada da vida e da obra de ACM. Vivia à procura de novidades na política e na ação administrativa, consciente de que o povo está sempre avido pelo novo.

Já quase octogenário, ele perseguia todos os dias a sua reinvenção. Certa vez ao tentar aproximá-lo de um importante político de outro estado, da mesma idade, ouvi de ACM: “Ele está velho. Não mudou. Eu procuro mudar sempre para permanecer no jogo”. Embora estivesse sempre na busca de novidades, nunca se propôs a ser um reformador de costumes. Procurava construir o futuro com respeito ao passado.

ACM era popular sem ultrapassar o limite do populismo. Diante de um grupo de deputados receosos de votar a reforma da previdência no primeiro governo Lula, ele vaticinou: “Se um homem de governo obedece cegamente aos apelos populares, contra a sua consciência, voltam-se contra ele a indignação e a ira dos mesmos que lhe incitaram à hipocrisia”.

Sobrenomes e berços não influíam na escolha de seu time. Era um devoto da meritocracia. Não hesitava em confrontar os poderosos e não aceitava nenhum ato de soberba contra o povo. Caía no ostracismo aquele que, ao alcance das suas vistas, esnobasse qualquer pessoa, principalmente as mais simples.

Embora nele se pudesse perceber o prazer de mandar, não se percebia a busca da grandeza como fim. Predominava o seu sentimento e sua capacidade de homem de Estado. Esse era ACM!

Artigo originalmente publicado no no jornal A Tarde do dia 25/07/2017