Artigo (A Tarde): Apontamentos para um tempo de paz

A desesperança paira no ar. Nas ruas e em todos os cantos, as pessoas estão a se perguntar: Por que o Brasil perdeu o rumo? O que precisamos fazer para retomá-lo? São questionamentos pertinentes. Afinal não estamos em guerra. Sofremos na paz a necessidade de uma agenda democrática de liberdade, na qual possamos viver harmonicamente num ambiente de justiça e solidariedade que nos permita voltar a prosperar. Não combinam com os valores cultivados pela imensa maioria dos brasileiros o populismo e o autoritarismo que estão resultando no caos vivido pelos nossos irmãos venezuelanos, reduzidos à paralisia e irrelevância. Não nos cabe permanecer nessa antessala da barbárie, “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, como diria o genial baiano Raul Seixas.

Nossa opção natural é pelo fortalecimento do estado de direito, baseado no império da lei, nas liberdades individuais e em instituições fortes. Queremos voltar a apostar na racionalidade da economia social de mercado e na abertura para o mundo, retomando uma diplomacia onde, em todo lugar, o Brasil seja a prioridade, sem outras opções e preconceitos ideológicos. Foi com a ortodoxia econômica trazida pelo Plano Real, com orçamentos equilibrados e responsabilidade fiscal, que conseguimos espantar de vez o terror da hiperinflação. Com a estabilização da moeda, alcançamos indiscutíveis avanços econômicos e sociais.

Em todo o mundo, vê-se que as sociedades capazes de conciliar as vantagens da economia de mercado com as necessidades de equilíbrio social são as que cultivam a tradição político-econômica liberal, fundamentadas nos direitos individuais, no republicanismo e no mercado. Nelas domina o pensamento social-cristão, baseado na justiça e na solidariedade. “A paz está no centro da tempestade”. A sábia frase do poeta alemão Hölderlin reforça o meu entendimento de que nem o estado nem o mercado são capazes isoladamente de oferecer as condições necessárias ao que seja uma boa qualidade de vida para as pessoas. Precisamos preservar um forte sentimento de propriedade, cultivando a solidariedade e o amor ao próximo.

Da mesma forma que não queremos romper com o capital, não desejamos um governo apoiado em corporações à margem da lei, como o MST. Aspiramos um governo apoiado nas comunidades, com mais abertura para o mundo. Queremos mais capital e mais ordem para conquistar melhores condições de vida para o nosso povo e recuperar a ética e o respeito aos poderes da república e suas instituições. A liberdade de expressão sustenta o estado democrático. Não admitimos nenhum tipo de controle social ou econômico dos meios de comunicação. Queremos mais imprensa livre e não menos. Estatizar ou acorrentar os meios de comunicação é o caminho da servidão e do autoritarismo, seguido por Chávez na Venezuela e pelos Kirchners na Argentina. Não é o caminho da prosperidade com liberdade e democracia.

O Brasil precisa de um estado forte e ágil, provedor de serviços públicos dignos para todos. Repudiamos o fracassado estado-empresário, fonte de alimentação de conluios e escândalos, como os que estamos a assistir diariamente nos meios de comunicação. Temos essa chance ainda porque se mantém resistente uma imprensa livre que resiste aos assédios e ameaças dos poderosos de plantão. Nosso objetivo é desengatar a marcha a ré que foi imposta ao nosso país nos últimos anos. Não queremos reestatizar as empresas privatizadas, mas sim fortalecê-las num ambiente empresarial mais amigável que estimule o crescimento e a geração do emprego de qualidade.

Repelimos a estultice da proposta de impeachment para juízes ou ministros de tribunais que tenham posicionamentos independentes e divergentes de interesses partidários. Impeachment é a salvaguarda da sociedade contra quem não cumpre com seus deveres públicos, desrespeitando a legislação nacional. O Brasil é muito maior do que um partido político.

Artigo originalmente publicado no dia 28/04/15 pelo jornal A Tarde