Artigo (A Tarde): Drummond está vivo

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“Os artistas são as antenas da raça”. Nunca foi tão verdadeira para mim essa frase do escritor norte-americano Ezra Pound. No último domingo, enquanto passavam na tevê as entrevistas dos ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rossetto, da Secretaria Geral da Presidência, abri o livro “Contos Plausíveis”, de Carlos Drummond de Andrade, justamente na pequena crônica “Tudo Bem”.

Numa prosa curta, escrita há anos, Drummond, que também é um dos nossos poetas maiores, ficticiamente relata a entrevista de um ministro tentando dar explicações sobre os problemas de seu governo: “O Ministro do Otimismo reuniu os repórteres e declarou: – A situação não é tão grave como dizem. Aliás, a situação não é nada grave. Quem inventou que a situação é grave?”.

Assistindo aos ministros da presidente Dilma Rousseff, ao som de panelaços em todo o país, depois de ter participado da grande manifestação de insatisfação popular no Farol da Barra, em Salvador, e acompanhado os pacíficos protestos, que reuniram milhões de brasileiros de Norte a Sul do país, eu imaginei que Carlos Drummond de Andrade estava vivo e acabara de escrever e postar nas redes sociais aquela história.

Na crônica de Drummond, os repórteres retrucam: “Ministro, os números…”. O representante do governo reage: “Nunca ouvi os números dizerem alguma coisa. Número não fala. Se falasse, reconheceria que tudo está sob controle”. O jornalista insiste: “Perdão, sob controle de quem?”. “Quando parece que as coisas estão sem controle, é porque estão sob controle de si mesmas…”, tenta explicar o entrevistado.

A ficção de Drummond virou realidade na coletiva dos ministros de Dilma. A tentativa de dar uma satisfação aos protestos nacionais foi inócua. Cardozo e Rossetto repetiram o mesmo discurso oficial que se prega no Planalto desde as eleições. Demonstraram total insensibilidade ao recado das ruas.

A dupla respondia aos questionamentos, demonstrando completo desconhecimento dos motivos que levaram as pessoas às ruas e aos panelaços. Isso por conveniência, claro. Todo o país entendeu os protestos contra o roubo do dinheiro público, a disparada dos preços e a falta geral de confiança naqueles que nos governam há mais de 12 anos, com mentiras e propaganda enganosa.

Mentiras, mentiras e mais mentiras. Essa é a prática contumaz de governos populistas como esse do PT, que se baseia em sonhos abstratos de propaganda pura, que nunca chegarão à realidade, e, enquanto os resultados não chegam – e nunca chegam! -, sobram as mentiras e, na medida em que o estoque vai terminando elas ficam cada vez mais esfarrapadas.

Vejamos o exemplo de Cuba, do companheiro Fidel Castro. No começo da Ditadura Castrista, Che Guevara, então Ministro da Economia, dizia que a culpa do subdesenvolvimento econômico de Cuba era do comércio com os EUA. Com a crise dos mísseis, veio o embargo e a suspensão das relações comerciais com os americanos. A desculpa, que antes era do “comércio opressor norte-americano”, se transformou na falta de comércio com o mesmo país.

Drummond captou o espírito petista de governar. Sua crônica é uma sucessão de desculpas esfarrapadas, chegando ao cúmulo de, ao final da história, o ministro anunciar que o fictício governo estabeleceria o imposto da morte. “Todos os mortos pagarão este imposto. Assim ninguém mais vai querer morrer, e está salva a pátria”.

Então, depois de tanto arrocho de impostos para os vivos, um tributo para os mortos pode ser uma excelente proposta para recuperar a popularidade perdida da presidente Dilma de Lula. Tenho absoluta certeza que o competente João Santana vai criar o programa “Mais vida para todos”.

Deputado Federal e Presidente Estadual do Democratas