Artigo (A Tarde): “Mãe, quando iremos retornar a 2014?”

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Quando tinha 12 anos, eu frequentava o antigo Cine Tupi, na Baixa dos Sapateiros. Foi lá, assistindo ao clássico Ben-Hur, que consegui compreender, com o inglês que estava aprendendo no Iceia, minha primeira frase no idioma de Shakespeare:

“Mother, when we’ll go back home?” (Mãe, quando retornaremos pra casa?). A pergunta era feita por uma criança, que vagava com a família pelo deserto.

A lembrança da pergunta me veio durante o Carnaval, quando, em meio aos meus netos, motivado pela profunda crise nacional, voltei a ler com interesse as causas e as consequências da Grande Depressão de 1929 nos Estados Unidos da América. Durante 10 anos todos perguntavam na terra do Tio Sam:

“Quando vamos retornar a 1929?”

Se eu ainda tivesse a felicidade de ter a companhia de D. Nina, a mulher maravilhosa que me botou no mundo, lhe perguntaria:

Mãe, quando iremos retornar a 2014? Lá tudo era cor de rosa. Tínhamos Fies, promessas de PAC Minha Casa, Minha Vida, energia e combustível barato para todos e mais empregos do Pronatec. Como dói a fraude de 2014!

Alguns economistas, sobretudo os de esquerda, atribuem a causa da crise de 1929 à especulação de ativos, muito parecida com aquelas correntes por cartas, nas quais é dito que, se você quiser receber mil reais, mande 100 para a pessoa cujo nome está no topo da lista, inclua o seu no décimo e envie a lista para 10 futuros ex-amigos. Todos sabem como isso termina. Mas, para que a especulação prospere, é fundamental a confiança nos líderes, empresários e governantes.

E a nossa grande depressão, prevista para ser a maior e mais longa da história, de onde ela veio? Por incrível que pareça, veio também de uma corrente que, como a especulação americana de 1929 e a cor-rente dos mil reais, só se torna possível quando as pessoas não são desconfiadas, precavidas, questionadoras, imunes a espertalhões e especuladores.

Vivemos mais de uma década acreditando que “nunca antes neste país” tínhamos encontrado um “gênio” para nos guiar. Se o papa fosse brasileiro, pode-ríamos pedir que ele levasse o nosso gênio e sua assistente para o Vaticano ou até mesmo para a escola de Harry Potter, porque os seus superpoderes já estão com a validade vencida.

Como não podemos pedir um favor tão grande ao papa Francisco, apelemos aos Correios, cujo fundo de pensão, o Postalis, foi assaltado pela turma do sítio. Emitiríamos um telegrama para o comando do Planalto, curto e grosso:

“Saiam daí logo. Não suportaremos esse filme de terror por mais três anos. Atenciosamente 80% dos brasileiros”.

Sob forte tormenta, a nau capitânia Brasil navega sob o comando de uma marinheira de primeira viagem e os oficiais imediatos pregam uma coisa e fazem outra. Batem cabeça e ainda forçam uma parada na praia do Guarujá para socorrer um náufrago, quase tão famoso como Caramuru. Só mesmo um comandante japonês, com cartas elaboradas em Curi-tiba, pode resgatar esse homem em sérios apuros.

“Estamos vivendo a pior crise em toda a história”, diz o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello.

Ninguém consegue enxergar terra à vista ou uma luz no fim do túnel. E a principal pauta da nossa presidente é a de advogada de defesa de um réu quase confesso!

Deterioração fiscal, incertezas políticas, perda de confiança, desemprego, inflação… A coleção de desafios econômicos é vasta. Se nada for feito, teremos mais indústrias parando, mais lojas fechando e os empregos voando rumo ao Oriente.

A Anfavea, associação dos fabricantes de veículos, anunciou que a produção de carros prevista para 2016 será equivalente à de 2010. E o nível de emprego despencando. No passo do caranguejo, es-tamos em marcha ré. Até quando a nossa nave vermelha nos guiará?

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 16/02/16