Artigo (A Tarde): Na defesa dos valores

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O resultado da pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que mediu pela primeira vez o Índice de Valores Humanos (IVH) no Brasil, em 2010, fez um alerta que passou despercebido a muita gente. Entre outros temas subjetivos, o item “valores” apareceu com o maior destaque em resposta ao questionamento “o que deve ser mudado no país para uma vida melhor?”.

Quando se observa a escalada da violência na Bahia nos últimos tempos, um estado outrora tranquilo, não se pode contestar que algo de fato está fora do lugar. Mais de 37 mil baianos assassinados em menos de oito anos representam um número de mortes superior ao de muitas guerras contemporâneas.

Ao acurar mais a observação, indo ao detalhe das razões desses assassinatos, vê-se que grande quantidade deles é de extermínio simplesmente ou consequência de assaltos banais. A mãe vai com o filho pequeno comprar pão numa manhã de domingo e acaba sendo morta a tiros, mesmo quando entrega o exigido pelo bandido. Assim tem sido a rotina do noticiário policial da imprensa. Assim tem sido a rotina das famílias baianas.

Há uma crise de valores que, entre outras consequências, trouxe a desvalorização da vida humana e banalizou a violência. A insegurança nos leva à desconfiança, que, por sua vez, nos leva ao esgarçamento do tecido social. A vida em sociedade agora se esconde no Facebook, Instagram, Twitter e outras redes.

Há uma teoria que versa sobre o intelecto humano coletivo defendida, entre outros, pelo filósofo Edmund Burke, que fala da importância dos valores. Segundo ela, somos grupos sociais e estabelecemos costumes, práticas e tradições como forma de resolver problemas da própria natureza humana em sociedade. Ideias como liberdade, igualdade e justiça foram forjadas dessa forma e são valores imprescindíveis para nossa sociedade.

O reforço a esses valores tem sido prejudicado pela agenda “progressista” do partido que está no poder há doze anos no país e há oito na Bahia. Ele tenta reduzir o debate a uma falsa polarização. São sempre eles contra os outros. O estado sob o seu comando politiza a justiça, a moralidade e a ética. Transformam criminosos condenados em mártires políticos e agora relativizam o recente rombo de R$ 10 bilhões em propinas na Petrobras como “parte do jogo”.

Ao fazer isso, não estão só corroendo nossos valores, estão atacando o estado de direito. É um novo estágio de corrupção inédito no país: a corrupção dos valores e das instituições. E não há como dissociar a atual crise moral que também assola a sociedade civil desse modus operandi de um governo onde o fim (perpetuação no poder) justifica todos os nefastos meios.

Os efeitos trágicos que esta crise gera na escalada da violência incide na descrença com a moral e a ética em nosso país, estimulando a grande apatia dos jovens brasileiros com a política. É esta mesma ausência de valores que gera uma dormência social, a ponto de não mais nos indignarmos pelas falcatruas que se repetem ano após ano com a mesma turma de sempre.

A sociedade está calejada de tanto desrespeito com a coisa pública. Isso é visto de forma muito especial na Bahia. Aqui não são afastados dos cargos aqueles sob forte suspeita de atividades ilícitas, ao contrário de outros estados. Aqui, nada abala as estruturas dos que se acham acima da moralidade e da ética.

Precisamos resgatar, principalmente nos jovens, essa defesa dos valores, da moral e da ética em todas as relações, do respeito à ordem e às instituições. Não podemos perder a nossa capacidade de se indignar, de exigir uma postura correta dos ocupantes de cargos públicos. É preciso trazer de volta a seriedade no trato do Estado, enxergar a capacidade do governo de inspirar confiança e respeito à sociedade civil.

A sociedade em grande parte reflete o comportamento de seus líderes. Já não é sem tempo se guiar na prudência para formar novas lideranças em todos os campos, que valorizem a ética, a moral e os bons princípios. A mudança da Bahia passa, antes de tudo, pelo resgate de nossos valores.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 16/09/14