Artigo (A Tarde): Nosso Brasil de volta

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O presidente Bill Clinton, um dos melhores dos Estados Unidos desde Franklin Roosevelt, dizia que os americanos preferem votar em alguém “forte e errado” a outro “fraco e certo”. No Brasil, nós, infelizmente, escolhemos, depois de um presidente forte e errado, uma sucessora fraca e errada. A combinação perfeita para o desastre.

Todas as pesquisas de opinião já indicam que estamos diante de uma tempestade de proporções iguais ou superiores às grandes crises de nossa recente república. E isso só faz crescer com o avanço da Lava Jato, a iminência da prisão de Lula, a falta de credibilidade do governo para propor uma saída à crise, a rejeição às contas de Dilma pelas pedaladas fiscais, os protestos nas ruas e o ajuste fiscal em cima dos mais vulneráveis.

Não há dúvida de que vivemos uma crise de proporções iguais ou superiores às seis outras que passamos depois da última grande guerra mundial. Já em 1945, houve a queda de Getúlio Vargas e a entrega do governo ao Poder Judiciário. Em 1954, com o suicídio de Getúlio, coisa de inimigos que se diziam amigos, ocorreu a luta pelo poder com Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos e a exploração da “Carta testamento”.

A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, foi outro momento crítico, que resultou no parlamentarismo e, logo depois, no retorno ao presidencialismo de João Goulart e a sua queda. Em 1964, o golpe que começou com a imposição do general Castelo Branco e perdurou até a saída do general João Figueiredo, em 1985, quando o processo de redemocratização se inicia de forma turbulenta, com a morte de Tancredo Neves e a posse do vice José Sarney. Em meio à crise econômica e corrupção, em 1992, acontece o impeachment do presidente Collor.

Agora, em 2015, novo enredo de tramas nebulosas, como o petrolão e o estelionato eleitoral de 2014, é terreno fértil para uma crise que não se sabe como vai terminar. Mesmo com todo o sofrimento da população, a incerteza e a insegurança, aparece agora Lula, um ex-presidente envolvido até o pescoço com o petrolão, ameaçando “brigar nas ruas, mobilizando o povo”, caso as denúncias contra ele o levem à prisão.

Este mesmo senhor e sua trupe exigem da fraca presidente a demissão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, por não garrotear a Polícia Federal e não embarreirar o Ministério Público Federal e a Justiça. Este mesmo senhor também é quem vem atacando sistematicamente a imprensa livre e os jornalistas, chegando ao cúmulo de comemorar demissões em massa.

Cabe agora defender o futuro de um país que se encontra em uma encruzilhada. Há uma crise institucional e um populista se dispondo a ir às ruas nos dividir. Ou o Congresso Nacional age conforme o desejo de 91% da massa não satisfeita com essa forma de governar, ou vamos também estar contribuindo com a desintegração de nossas instituições reerguidas e mantidas a tanto custo. O governo Dilma acabou e nos cabe agora salvar o Estado.

A salvação tem que ser pela via democrática, que é sempre muito sofrida em um sistema presidencialista, mas que deve ser procurada de forma a evitar qualquer motivação a grupos radicais ou sectários. Temos o direito e o dever de apoiar a Justiça Eleitoral para que ela cumpra o seu papel constitucional e decida pela realização de um novo pleito eleitoral livre das extorsões comprovadas no processo do petrolão.

O Congresso, que se agigantou diante da falência do Poder Executivo, precisa também de grandeza no senso de responsabilidade e equilíbrio. Com prudência e nos limites da Constituição, vamos encontrar uma solução pacífica e democrática para esse impasse criado por uma presidente, como diria Clinton, “fraca e errada”.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 07/07/2015