Artigo (A Tarde): O Brasil e os Brasileiros

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Depois da constatação do estelionato eleitoral, a rápida queda de prestígio e de credibilidade do governo federal se expressa em todas as pesquisas de opinião e se evidencia no semblante desiludido da grande maioria dos brasileiros, dando a impressão de que existe o Brasil do Bem e o Brasil do Mal. Mas essa é uma tentação perigosa e um caminho fácil.

Na história, no entanto, é possível encontrar palavras sábias, como as do escritor alemão Thomas Mann, que nos ajudam a evitar cair nesse tipo de armadilha.

Em 29 de maio de 1945, numa conferência na Biblioteca do Congresso Americano em Washington (EUA), o autor do clássico “A Montanha Mágica”, ao falar da catástrofe alemã, mesmo diante da forte pressão do fim da Segunda Guerra, resistiu à tentação do maniqueísmo simplista de uma Alemanha do Bem e outra do Mal.

Categórico, Thomas Mann afirmou: “Há apenas uma Alemanha. Infelizmente, por intermédio da astúcia do demônio, o melhor nela tornou-se maldade”.

Hoje, unidos no descontentamento, nós também não podemos perder de vista que o Brasil e os brasileiros formam uma só nação. Se nós, o povo, estivemos em lados opostos nas eleições, agora podemos sonhar o mesmo sonho. Por que não?

A certeza dessa possibilidade se acendeu para mim flamejante durante o recesso parlamentar, quando estava com a família visitando a bela e acolhedora Cidade do Porto, em Portugal. Lá me chamou a atenção uma multidão em fila sob o sol escaldante do verão da Península Ibérica.

Eram centenas de pessoas, com as quais me juntei acompanhado de minha esposa e netos, ávidas a conhecer a tradicional Livraria Lelllo. Nesse espetacular e secular templo dos livros, mergulhei num verdadeiro túnel do tempo. Fui arrebatado pela beleza da magnífica escada do local, uma verdadeira obra-prima a ornar aquele lugar de tantas histórias.

Foi ao subi-la que se estabeleceu a ponte entre o passado e o presente. Senti-me ao lado de dois mestres da nossa língua: os escritores portugueses Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, que tanto circularam por lá. E foi num livro de Eça, comprado naquela catedral do saber, que aplaquei a minha angústia com a crise brasileira.

Cito a passagem: “O sentimento que hoje domina os espíritos perante a política é, sobretudo, a desconfiança. Sente-se um vago receio. O governo está trêmulo, a oposição inquieta, os homens dos pequenos partidos sem saber onde ir buscar o seu apoio e a sua força. O povo, descontente”.

Jamais imaginei que o autor de clássicos da literatura, como “O Primo Basílio” e “Os Mais”, estivesse tão atualizado sobre o mal-estar dos brasileiros. Mas isso não vem ao caso. As crises trazem dor, perda, sofrimento, revolta, mas, como aconselha o mesmo Eça de Queiroz, não deve abrir espaço para o ódio.

“O ódio é um sentimento negativo que esteriliza a quem a ele se abandona e bem depressa vê consumidas na inércia as forças e as faculdades que a Natureza lhe dera para a ação. (…) Mas que esse sentimento seja secundário na vasta obra que temos diante de nós, agora que acordamos”.

O visionário Eça deu a dica. Acordamos e estamos antenados. O tempo que se inicia deve ser de mudança e de reconciliação do povo brasileiro, sem incorrer no mesmo erro de quem hoje está a caminho do ostracismo e não se cansa de repetir a insuportável ladainha “nunca antes na história desse País”, imaginando que os fatos podem ser apagados e reescritos ao bel prazer. Pretensioso, tenta, quase de forma obsessiva, começar tudo do zero, destruindo sem reconstruir.

Ainda que com certa ironia, temos de admitir que “esse homem é meu irmão”. Portanto, vamos construir um novo tempo, usando como alicerce os bons frutos do doloroso processo por que estamos passando, petrificados na verdade, na justiça, na solidariedade e no amor.