Artigo (A Tarde): ‘O Brasil não é para principiantes’

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A frase é atribuída ao maestro Antônio Carlos Jobim, o Tom Jobim, gênio da raça, que, ao lado do baiano João Gilberto e outros pares, criou a Bossa Nova, inovação musical que conquistou o respeito e a admiração mundial. Em sua máxima, o autor de Garota de Ipanema sugere que o nosso país é repleto de complexidades que podem revelar armadilhas aos neófitos ou desavisados. Por esta razão, não tolera análises simplistas.

Assim como é a Bossa Nova, fácil de ouvir, mas difícil de ser executada pela complexidade de suas harmonias e refinamento de suas melodias, exigindo muito esforço e prática para quem se propõe a tocá-la, dificilmente um principiante, por mais que se esmere, tira um clássico desse estilo musical no violão.

Embora a música fosse a sua arte maior, não faltava a Tom Jobim a sabedoria de um arguto observador da realidade. Fico a imaginar o que lhe passaria pela cabeça assistindo ao crepúsculo de uma era na qual os governantes prometeram que o estado resolveria tudo. Mas o que se vê é o esgotamento de um modelo econômico calcado no populismo e o exemplo corajoso do jurista Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, de propor o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Não foram poucas as tentativas da propaganda petista de colar nela a fama de “gerentona” e “mãe do PAC”, no intuito de construir uma imagem de gestora técnica e competente. Ainda na condição de auxiliar de seu antecessor, seja no Ministério de Minas e Energia ou na Casa Civil, a sisudez, que lhe é peculiar, dava-lhe o necessário ar de séria para afastar suspeitas de qualquer ordem.

Não era bem assim, não. Afinal, quando era a presidente do Conselho da Petrobras, ela autorizou a irresponsável compra superfaturada da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. E ainda criou uma cortina de fumaça, pregando um pseudonacionalismo, com o objetivo de colocar na direção da estatal verdadeiras gangues, em vez de competentes executivos.

Aturdido hoje vive o povo brasileiro diante das consequências trágicas da arrogância de um partido, que enfiou o Brasil no buraco sem admitir jamais a sua responsabilidade. Muito pelo contrário. Mesmo agora a tentativa é sempre de transferi-la a outrem, seja ao Congresso Nacional ou a inexistentes crises internacionais, quando não se apela à falaciosa herança maldita.

Pois é, Tom, sua frase é sábia: “O Brasil não é para principiantes”. Estamos sentindo isso na pele ao experimentar esse calvário petista, no qual a corrupção ganhou dimensões exponenciais. Enxovalham a República e lambuzam-se no mel numa reprodução perfeita do que acontece a inexperientes filhotes de ursos quando se deparam com um tacho do doce produto das abelhas.

A recente perda do grau de investimento do Brasil na avaliação da agência Standard & Poors reflete a encruzilhada para a qual fomos conduzidos pelo PT. O pior: essa encruzilhada só nos leva a abismos. Por isso, é evidente e indiscutível a incapacidade de a presidente Dilma Rousseff continuar guiando os destinos do país. Temos tido provas disso desde o primeiro dia da posse de seu segundo mandato. As deslavadas mentiras da campanha resultaram na perda de popularidade e credibilidade.

Depois das tentativas de remendar o rombo no orçamento passado com as tais pedaladas fiscais, ainda em julgamento no Tribunal de Contas da União (TCU), fazem-se promessas orçamentárias inexequíveis, a partir de insuportáveis aumentos de carga tributária e supostos incrementos de receita com projeções de PIBs arrogantes e fictícias.

“É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com essa tristeza/ É preciso inventar de novo o amor” (Carta ao Tom, de Vinicius de Moraes).