Artigo (A Tarde): O homem que vendeu a alma

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A política não pode se distanciar da família, da moralidade e da comunidade. Em raras ocasiões ouvi meus pais falarem de política. Mas foram as histórias que me contaram e as experiências que vivemos juntos, que forjaram os modelos morais que me permitem pensar, falar e agir na vida e na política muitas vezes de forma automática, porém sempre respeitando o passado, vivendo o presente e construindo o futuro, com base na família, na moralidade e na comunidade.

O que meu pai, um oficial da Polícia da Bahia, com formação de advogado, pensaria ao ver um grupo de jovens reunidos, em um encontro político oficial, financiado com dinheiro dos nossos impostos, para homenagear, como heróis, um grupo de políticos condenados à prisão, por corrupção, pela mais alta corte de justiça do país? A indignação seria imediata e o comentário seria do tipo: “Que tipo de líderes estamos formando para o nosso futuro? Tão jovens e já estão sendo induzidos a imitarem Fausto, vendendo a alma ao diabo! Quem será o seu Mefistófeles a lhes prometer o gozo pleno da felicidade, sem lhes mostrar o preço a ser pago?”

A resposta a meu pai fui encontrar no perfil do Facebook de meu filho Alexandre, em uma citação de um trecho da Divina Comédia, de Dante Alighieri, clássico da literatura universal, onde está descrito o seu encontro com a fraude: “E, pois, da fraude a imagem degradante/ achegou-se, exibindo a fronte e o busto,/ voltada a cauda para o poço hiante./ Era o seu rosto como homem justo,/ qual, benigno, por fora se apresenta,/ mas a víbora tendo o corpo angusto”. Na obra-prima literária, a fraude maravilha Dante. A visão imediata da beleza e da imagem atraente captura o viajante que se prende às primeiras impressões guiadas pelo prazer. Ele via o rosto humano e não percebia o corpo de serpente.

Fico a refletir sobre os milhões de jovens brasileiros que vivem em situação de risco, em comunidades dominadas pelo tráfico e pela violência, muitas vezes com os pais desempregados ou subempregados. Aonde vão buscar inspiração para trilhar o caminho do trabalho, do respeito às pessoas, às famílias, às comunidades, à moralidade e às leis, quando se veem diariamente bombardeados por todos os meios de comunicação por cenas explícitas de deslavada banalização do mal, do bem e da mentira?

Outros possíveis referenciais se deterioram ainda mais, quando se assiste à desfaçatez de alguns dizerem peremptoriamente que milhões de dólares apareceram em suas contas sem que percebessem. E outros afirmarem que os filhos receberam milhões pela venda de espuma, porque são gênios em produzir espuma. “Onde está a honestidade?” é um samba de Noel Rosa que se encaixaria perfeitamente como trilha sonora deste lamentável momento brasileiro

Nele, Noel, o Poeta da Vila, ironiza: “O seu dinheiro nasce de repente/ E embora não se saiba se é verdade/ Você acha nas ruas diariamente/ Anéis, dinheiro e felicidade/ Onde está a honestidade?”. Essa canção dos anos 1930 soa até pueril diante dos acontecimentos atuais. Afinal, o que pensar quando o líder mais popular, depois de Getúlio Vargas, faz desfilar as maiores mentiras na tentativa desesperada de livrar os melhores amigos, e até os parentes, de fundadas acusações de desvio do nosso dinheiro, administrado pelo poder público? Será que Mefistófeles também tem o seu dia de Fausto?

O mal está presente em todas as sociedades e religiões e costuma se espalhar como um rastro de pólvora, às vezes imperceptível, mas sempre procurando destruir qualquer reação moral importante. Os que banalizam o mal, mesmo que para encobrir os desvios de conduta ou crimes, precisam também banalizar o bem para que tudo tenha a mesma tonalidade e a maioria desavisada não possa perceber a diferença. No início fazem muito esforço para se mostrarem diferentes, mas, uma vez descobertos, gastam o dobro da energia na desesperada tentativa de misturar tudo e passar a ideia de que todos são iguais