Artigo (A Tarde): Santa Catarina 4×0 Bahia

Bahia e Vitória caíram abraçados para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O rebaixamento simultâneo para a Série B é consequência de um conjunto de falhas, que revela a inadequação de nossos clubes às exigências profissionais e empresariais do futebol na atualidade. Em meio ao desastre baiano, vê-se a ascensão de Santa Catarina. Sem a mesma tradição na disputa, na qual o Bahia já foi bicampeão e o Vitória vice, os catarinenses terão quatro times na Série A do ano que vem. Santa Catarina 4 x 0 Bahia.

O sucesso catarinense no futebol sem dúvida reflete o desenvolvimento social do estado. Hoje Santa Catarina detém a menor taxa de analfabetismo e de mortalidade infantil do país, o maior índice de expectativa de vida, além de ter o terceiro maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), perdendo apenas para São Paulo e o Distrito Federal.

No aspecto social, a distância entre Santa Catarina e a Bahia é abissal. Se os catarinenses ocupam o topo dos melhores resultados, os baianos estão na rabeira. Basta conferir o IDH, onde a Bahia ocupa a 22ª posição entre os 27 estados brasileiros. Economicamente a pujança catarinense também prevaleceu sobre a estagnação baiana dos últimos anos, quando o PIB da Bahia foi superado pelo o de Santa Catarina e até pelo o do Distrito Federal. Os catarinenses são hoje a sexta economia do País e os baianos, a oitava, sob a ameaça de Pernambuco e Goiás.

O fracasso dos principais times baianos no Campeonato Brasileiro de Futebol talvez reflita também o desafortunado momento em que tantas expectativas para o nosso estado foram frustradas. Depois de oito anos, mesmo com o governante sendo do mesmo partido do presidente da República, os índices sociais e econômicos pioraram. A desenfreada violência que abateu a Bahia nos últimos anos, colocando-a entre os estados com as maiores taxas de homicídio do país, sintetiza o fracasso de um governo que sequer foi capaz de exercer com eficiência uma de suas funções precípuas: a segurança pública. Não foi diferente com a saúde e a educação.

O mínimo que se pode colher de um fracasso, seja no futebol, na vida, ou nos negócios públicos ou privados, é se questionar: Por que nós falhamos e eles não? Faço a comparação da Bahia com Santa Catarina, um estado que avançou ultimamente, superando-nos até no futebol. Tanto no futebol quanto no atual governo da Bahia, as decisões não são tomadas por erro ou ignorância, mas de propósito. Seguem, no caso do governo, a equivocada premissa de cultivar a pobreza, e, dos times, a falta de ousadia de querer ser o campeão, preferindo apenas permanecer na competição. A mediocridade impera.

Admirador do sucesso, mas um aguçado observador do fracasso, fiquei impressionado com a leitura do livro “Por que as nações fracassam”, de James Robinson e Daron Acemoglu. A obra da dupla de pesquisadores do MIT e de Harvard relata vários casos de forma comparada. Dentre esses exemplos, há o das cidades de Nogales, no Arizona, nos Estados Unidos, e Nogales, em Sonora, no México. As duas ocupam o mesmo território que se divide entre os dois países. Do lado norte-americano, há prosperidade e ordem, do mexicano, pobreza e violência.

O contraste seria causado, segundo os autores, pela força das instituições do lado americano, consequência da formação social e política dos Estados Unidos, e pela fragilidade das instituições existentes no México, decorrente do processo mexicano, que sofrera uma colonização de exploração, diferentemente da ocorrida nos EUA.

Bahia e Santa Catarina estão num mesmo país. Não são cidades, mas estados com geografias distintas. Sofreram o mesmo processo colonizador. A Bahia sempre esteve à frente de Santa Catarina ao longo da história. A ultrapassagem catarinense, principalmente no aspecto econômico e institucional, é recente, o que demonstra a possibilidade de alguma derrapagem na condução baiana. É preciso debater políticas e ações que recuperem a importância nacional da Bahia. Nem o futebol nem o governo são jogos de azar. As nossas instituições estão doentes.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 09/12/14