Artigo (A Tarde): Tanque cheio é ostentação, Zé

artigo-a-tarde-tanque-cheio-e-ostentacao-ze_17-02-15_max

Nesta Terça de Carnaval, quando muitos, em Salvador, ainda curtem o último dia da folia, e outros preparam as malas para retornar à rotina, depois de preferirem descansar durante o feriadão em locais mais tranquilos, lembro-me da disputa de minha primeira eleição para a Câmara Federal.

Marinheiro de primeira viagem, sem experiência e ainda sem estrutura de campanha, contei com o inestimável apoio de amigos da infância, adolescência, juventude e por onde trabalhei. Foi com o esforço deles de forma voluntária e desinteressada que conquistei o direito de representar o povo da Bahia no Congresso Nacional naquela eleição de 1990.

Não imaginava que, na minha estreia em Brasília, exerceria um mandato em momento tão relevante da história de nosso país, marcado pelo impeachment do presidente da República, Fernando Collor, e a implantação do Plano Real. Episódios que, no caso do primeiro, demonstraram a força de nossa jovem democracia, e, no segundo, o fim da inflação, iniciando um novo ciclo na economia brasileira.

Agora quando o pesadelo da inflação, sepultado pelo Plano Real, volta a nos atormentar e vemos a presidente Dilma Rousseff colocar na conta do povo brasileiro os prejuízos causados pelo “petrolão” de Lula, com o litro de gasolina no Brasil tornando-se um dos mais caros do mundo, lembro-me do Chevette de Torquatinho, amigo de infância.

Éramos parceiros de traquinagens em Taperoá, onde pescávamos, caçávamos e, à noite, íamos a pracinha da cidade, que teve a construção iniciada pelo jovem prefeito Nivaldo Lins, meu pai, durante a Segunda Guerra. Nela flertávamos com as lindas morenas que vinham da roça com seus vestidos de chita. Tempos em que prova de amor era pegar a namorada em casa.

Mas eleito, eu percorria o estado para agradecer os votos recebidos. Vivia-se a ressaca da frustrada tentativa do Plano Collor de debelar a inflação, que, como hoje, se manifestava resistente no alto preço da gasolina. Encontrei Torquatinho em Valença e ele fez questão de me levar a Nilo Peçanha em seu Chevette para agradecer os amigos eleitores.

No meio do caminho, paramos num posto de combustíveis e, sob o olhar ressabiado de Torquatinho, mandei encher o tanque de seu Chevette. Naquele seu jeitão simples, ele disse: “Tanque cheio é ostentação, Zé”. Seguimos o caminho, relembrando histórias da juventude e contando casos da campanha.

Em determinado momento, já chegando a Nilo Peçanha, chamou minha atenção o ponteiro da gasolina, que se aproximava da reserva num rápido consumo que não correspondia à distância percorrida. Cheguei a comentar que o Chevette estava bebendo muito e Torquatinho replicara que devia ser algum problema no marcador, uma vez que se acostumara a andar na reserva. “Tanque cheio é ostentação, Zé”, repetiu.

Ao chegarmos à cidade, algumas pessoas nos acenavam e gritavam algo que não dávamos a devida importância. Até que “plaff”, ouvimos o barulho de algo que se desprendera embaixo do carro. Paramos e logo vimos que um rastro de gasolina acompanhara nosso trajeto e, o pior, o tanque rachado despencara na pista. “Tanque cheio é ostentação, Zé”, disse novamente Torquatinho dessa vez soltando uma contagiante gargalhada.

Quando a nau petista nos põe na contramão de um mundo em que o preço do petróleo está em baixa e a gasolina mais barata, é mais do que oportuno recordar a sábia frase de Torquatinho. Afinal vai sobrar para o povo brasileiro pagar a conta do petrolão e da desastrada gestão do PT tanto no Brasil quanto na Bahia. Vamos ter que engolir mais impostos: Cide, Cofins e a nova base de cálculo do ICMS do governo baiano. “Tanque cheio é ostentação, Zé”.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde no dia 17/02/15