Artigo: Cem anos de brilho sem e-mail

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Tenho ouvido com muita frequência amigos sobrecarregados e estressados, repetindo de forma quase automática: “Como as pessoas podiam viver sem um e-mail?”. Melhor seria perguntar: “Como livrar-se de tanto e-mail, WhatsApp, Facebook?” Aproveito para destacar trecho de carta de Dorival Caymmi a Jorge Amado: “Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar. Compor, vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí”.

E volto a indagar, será que Caymmi teria composto as inúmeras obras-primas do cancioneiro nacional, como O que é que a baiana tem, sucesso mundial na voz de Carmem Miranda, se tivesse que esvaziar a caixa de e-mail a cada hora e recebido um WhatsApp a cada minuto? Sem contar as outras redes sociais.

Hipercomunicação gera desatenção, limita a criatividade e em geral acarreta perda de eficiência. Novas mídias requerem tempo para desenvolver os contornos do relacionamento e uma nova etiqueta.
Caymmi, Rômulo Almeida e Diógenes Rebouças, três dos mais ilustres baianos em três diferentes áreas, que este ano completariam cem anos, viveram, pensaram e criaram em tempos de cartas, telegramas e parcos telefones fixos. Tempos em que as pessoas sabiam o valor do tempo – seu e dos outros – e se penitenciavam quando não tinham a capacidade ou a dedicação para se comunicar com precisão e harmonia.

Caymmi foi um mestre da arte de viver. Muito antes do sociólogo Domenico De Masi desenvolver a sua teoria do ócio criativo, o Buda Nagô, como lhe chamava Gilberto Gil, a praticava de maneira tão eficiente e prazerosa na arte que escolheu para ser um dos melhores: a música. Ao lado de Jorge Amado, Carybé e Pierre Verger, ele foi um dos pais da baianidade, a forma idílica de ser da Boa Terra que encantou o imaginário mundial.

Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de Rômulo no Conselho do Banco do Nordeste (BNB). O seu talento e sua capacidade já eram reconhecidos desde os tempos de Getúlio Vargas, quando organizou a assessoria econômica da Presidência da República, em 1951. Concebeu o Banco do Nordeste e foi um dos idealizadores do Polo Petroquímico de Camaçari.

Posso dizer que Dorival Caymmi tratava o tempo da sua vida com a esperteza de um grande economista e Rômulo Almeida, além de sua brilhante mente sempre fulgurante de ideias, fazia com que seus comentários e observações soassem em nossos ouvidos como uma boa música, na época do Conselho do BNB.

Dos feitos de Diógenes Rebouças tive as primeiras notícias nos anos 70, quando andava às voltas com o planejamento do sistema elétrico de Salvador. As suas obras arquitetônicas e passagem pelo Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador (Epucs) nos legaram exemplos para o futuro das cidades.

Recentemente, na condição de secretário municipal de Urbanismo e Transporte, voltei a tê-lo como referência. Diógenes Rebouças adiciona às três dimensões do espaço real a quarta dimensão do tempo, visto com tanta sabedoria e baianidade pelos outros dois companheiros de século.

“O e-mail que pretendia ser visto como a melhor ferramenta para os negócios, desde o telefone, na verdade está se tornando o maior devorador de tempo desde a televisão”, escreveu Simon Kuper, especialista em antropologia e esporte, jornalista do Financial Times. É dele a autoria do artigo “A outra parte do jogo: o lado hediondo do futebol brasileiro”, que há pouco tempo teve grande repercussão em nossa imprensa.

Portanto, sugiro que comecemos a construir uma blindagem para o nosso tempo. Ouçamos Caymmi e deixemos de ler e-mail longo. Vai sobrar tempo para visitar o Hotel da Bahia (Sheraton) de Diógenes Rebouças, hoje dirigido por Paulo Gaudenzi – aos meus olhos o maior conhecedor da indústria de turismo na Bahia. E, quem sabe, até para pensar, como Rômulo Almeida, no futuro da Bahia, estado que anseia por encontrar novos caminhos.

Artigo publicado no jornal A Tarde de 27/05/14