Artigo: Depois dos cem dias

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Para aprovar a regulamentação do artigo 192 da Constituição, que trata do sistema financeiro e abre a possibilidade de o Banco Central se tornar autônomo, governo e oposição votaram juntos. Nesse episódio, não foi a oposição que votou com o governo, mas o governo que votou com a oposição. Por quê? Porque, no governo FHC, nós defendemos abertamente essa mudança, e não faria sentido mudar de opinião agora. Foi o PT que trocou de lugar no painel de votação.

O PT e seus aliados não queriam, nos tempos de FHC, nem ouvir falar em regulamentação do artigo 192. Agora, mudaram de opinião. Mas mudaram por quê? O que fez com que todos esses deputados, sindicalistas de palácio e a companheirada do governo virassem a casaca do dia para a noite? A resposta é simples: o fato de terem se tornado governo e serem obrigados a encarar a realidade. O tempo da fantasia ficou lá atrás, nos palanques da campanha.

Todo mundo sabe que a reforma da Previdência é importante para o país já há muito tempo. E, do mesmo modo, a reforma das leis trabalhistas e a regulamentação do artigo 192. Mas a tropa do PT era contra e ganhou muito voto sendo contra. À época, prometia implodir essas reformas das quais, hoje, são os mais novos arautos.

O eleitor está começando a perceber que o discurso do PT mudou. O partido que guerreava para aumentar os salários dos funcionários públicos e que considerava a contribuição de inativos uma heresia hoje defende justamente o contrário. O povo começa a compreender que as fulgurantes promessas do palanque eram apenas engodos para capturar o seu voto.

Há uma enorme diferença entre a oposição do PT ao governo FHC e a oposição que o PFL está fazendo ao governo Lula. A começar pela responsabilidade que nós, do PFL, temos com nosso país e nosso povo. Nós mantemos a coerência, diferentemente do PT, que prejudicou o Brasil impedindo as reformas que hoje defende. Este é o tal remédio amargo, ministrado por quem, ainda havia pouco, chamava de traidores da classe trabalhadora os parlamentares que apoiaram as reformas. Na classificação do próprio presidente Lula, essa era uma oposição de “bravatas”. A nossa é uma oposição de responsabilidade.

Aqueles que venderam ilusões durante a campanha eleitoral hoje entregam frustrações ao povo brasileiro

Agora, os mesmos que achincalhavam quem agia com patriotismo na defesa do interesse público propõem um salário mínimo de R$ 240. Os mesmos que passaram a vida criticando a política salarial oferecem o mínimo dos mínimos. Fernando Henrique, no seu primeiro ano de governo, deu 40% de aumento. E eles criticaram.

Em cem dias, o governo Lula conseguiu a proeza de paralisar os investimentos em infra-estrutura, ameaçar a autonomia das agências reguladoras, gerar insegurança e espanto nos investidores – o que se reflete na redução de capitais investidos no país. Dos R$ 14 bilhões consignados no Orçamento, foram empenhados, até agora, só 2,2%. Dessa migalha, R$ 1,5 milhão foram gastos pelo ministro e a equipe do Fome Zero em passagens e diárias. E o povo, a zero.

A rigor, a única coisa que está dando certo nesse auto-intitulado “governo da mudança” é precisamente o que não mudou nada: a gestão da política econômica e financeira. A cotação do dólar recuou e o índice de risco, que havia crescido durante a campanha pela desconfiança no candidato Lula, está agora retornando ao patamar em que se encontrava antes das eleições de 2002.

Como todo o recém-convertido, o presidente Lula vai além do que pregam seus novos gurus, é mais ortodoxo do que o próprio FMI. Reza, contrito, pela cartilha do banco e faz mais do que o necessário. Em consequência, estamos a ponto de ter um espetacular superávit fiscal. O pessoal de Washington está encantado com essa inusitada realização do neoconservadorismo; mas, por aqui, a popularidade do presidente caiu 33 pontos percentuais em cem dias. Despencou dos 76% de antes da posse para 43%, na última pesquisa Datafolha.

Essa sombria experiência de incoerência e mistificação mostra a importância de uma oposição responsável, realista, com os pés no chão. O PFL escolheu esse caminho não porque é o mais fácil, mas porque é o melhor para o Brasil. Aqueles que, fazendo bravatas, venderam ilusões durante a campanha eleitoral hoje entregam frustrações ao povo brasileiro. O aposentado que se imaginava livre de uma eventual contribuição vê, hoje, aquele seu valente deputado, o seu senador brigão, o governo que ajudou a eleger propondo a contribuição dos inativos. O trabalhador que acreditou que a CLT era intocável, como lhe foi dito na campanha, está estarrecido diante das propostas, não mais de mera flexibilização, mas de mudança, formuladas pelo ministro do Trabalho. Foram todos redondamente enganados. O governo Lula fala muito na “herança maldita” do governo FHC. Maldita é a lição de irresponsabilidade que a oposição ao governo FHC legou para o Brasil.

Artigo originalmente publicado no dia 24/04/2003 no jornal Folha de São Paulo