Artigo: Liberdade e Honestidade na Cultura

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O time da cultura e das artes nacionais ficou desfalcado de três craques no mês passado. Se julho começou pouco alvissareiro com a humilhante eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, as mortes dos escritores João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, e também do filósofo Rubem Alves, num espaço de menos de uma semana, deixaram uma impreenchível lacuna no campo da independência e honestidade intelectual em nosso País.

Não dá para negar que, nos ares da cultura e das artes do Brasil, têm-se respirado ultimamente pouca independência e honestidade intelectual. E, para ficar só no exemplo do baiano João Ubaldo Ribeiro, nunca nestes tempos de obscuridade petista, o autor de “Viva o Povo Brasileiro” cedeu a qualquer tentação de sinecura. Muito pelo contrário. A integridade de suas opiniões está firme até o seu último artigo “O Correto Uso do Papel Higiênico”, publicado na imprensa.

Seria impossível esperar outra posição, senão de independência, do filho do jurista Manoel Ribeiro. O pai de João Ubaldo me impressionou no alvorecer da juventude, com um dos melhores discursos que já ouvi na vida, numa formatura de bacharéis de direito. Cidadania, liberdade, justiça e paz foram temas tratados numa eloquência fascinante. Filho de peixe, peixinho é, diz o povo. Portanto, não é de surpreender o talento de João Ubaldo.

O eterno escritor de Itaparica foi fundamental para a formação da nossa cultura nas últimas décadas. Essa perda nos leva a refletir sobre a importância que a arte literária tem na busca pela verdade do conhecimento. É triste vermos que perdemos um amante da “verdade possível” em tempo que a manipulação e a desonestidade nas artes são tão comuns. Hoje a falta de transparência de verbas estatais dita quase todas as expressões artísticas e, quando não é possível esse tipo de financiamento, existe o patrulhamento ideológico disfarçado do “politicamente correto”, que extermina qualquer liberdade criativa.

Às vezes, assistimos até ao patrulhamento ameaçador e escancarado. Nos últimos dias vimos até um mero relatório de um banco ser manifestamente patrulhado pelo governo federal, o que levou a instituição a demitir todos os funcionários envolvidos e a expressar uma desculpa formal ao governo. Isso nos fez lembrar do caso do repórter do New York Times Larry Rother, que foi ameaçado de ser expulso do país por ter publicado um texto crítico ao ex-presidente Lula.

O que acontece quando a verdade dos conceitos é ameaçada? Surge inevitavelmente um campo fértil para as ideologias radicais, defensores de slogans. Não é à toa que estamos assistindo a um fortalecimento de grupos radicais no Brasil, como os Black Blocs e os mais diversos movimentos inflexíveis e intransigentes. Como certa vez levantou George Orwell: “A ideologia anima homens que pensam em slogans e falam de balas de revolver”.

Segundo Aristóteles, o conhecimento é um só, não existindo campos ou compartimentos como cultura, arte ou ciência. Na verdade, para o sábio grego, tudo faz parte do conhecimento da busca pela verdade e o que diferencia cada expressão de conhecimento é a credibilidade; por isso ele mesmo subdividiu em quatro discursos: a poética (o possível), a retórica (o provável), a dialética (o verossímil) e a analítica (a certeza).

Nessa linha, nenhuma busca pela verdade é iniciada sem que o possível seja descrito (com honestidade!) pela poética, pela literatura e pelas artes em geral. É difícil pensar em alguém que incorporou essa função aristotélica da poética com mais afinco que João Ubaldo Ribeiro. A honestidade intelectual do baiano era tanto que nos restava descansar quando líamos as suas obras ou até artigos.

Eis a verdadeira função da “poética” que tão bem exerceu o nosso baiano de Itaparica. No bom ditado popular, ele colocava os pingos nos “is”. Na política, o sucesso vem com prudência e não pode existir aliado melhor que a verdade, dificilmente encontrada nos slogans. Precisamos mais do que nunca da imortalidade de João Ubaldo Ribeiro.

Artigo publicado no jornal A Tarde de 05/08/2014