Artigo: Maria Quitéria e as mulheres do século 21

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A ascensão feminina na sociedade é um “óbvio ululante”, como diria o escritor Nélson Rodrigues. Este jornal A TARDE é um exemplo pontual. No “Vespertino da Praça da Sé”, como já foi popularmente conhecido o centenário diário da família Simões, hoje é uma mulher quem dirige a redação: a jornalista Mariana Carneiro.

É uma novidade alvissareira que ratifica a expectativa do século XXI ser aquele de consolidação das conquistas femininas. Lembro que há algum tempo as mulheres vêm povoando as redações da mídia, aumentando gradativamente a sua presença, possivelmente já sendo até maioria. Mas assumir o comando é um fenômeno recente, pelo menos aqui na Bahia. Os tempos mudaram.

Se o poder feminino está se consolidando neste século, as lutas das mulheres começaram no século XIX. É desta época, antes mesmo do nascimento oficial do movimento feminista, a história de uma baiana que merece sempre ser lembrada e homenageada, não só pelo importante papel desempenhado como heroína da independência, mas também pelo pioneirismo na luta pela emancipação da mulher brasileira.

Nascida na atual cidade de Feira de Santana, em 1792, a jovem Maria Quitéria de Jesus Medeiros estava marcada pelo destino comum de todas as mulheres de sua época: as atividades domésticas. Filha primogênita de Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus, com a morte da mãe logo ficou responsável pela criação dos irmãos.

Numa sociedade marcada por uma histórica divisão sexual do trabalho, com separação muito rígida entre a esfera familiar e a produtiva – a familiar seria feminina e a produtiva, masculina –, Maria Quitéria poderia ser mais uma mulher a ter uma vida dedicada apenas à família e às atividades domésticas, sem uma participação efetiva nos rumos de seu país. Estava noiva quando, entre 1821 e 1822, iniciaram-se na província da Bahia as agitações contra o domínio de Portugal.

Movida por um destemido sentimento cívico e contra a vontade do pai, Maria Quitéria, com a ajuda da meia-irmã Teresa Maria, cortou os cabelos,vestiu-se como um homem e se alistou sob o nome de Medeiros, no Regimento de Artilharia para lutar contra os portugueses pela independência da Bahia e do Brasil.

A rebeldia foi condenada pelo pai. Mas, como diria o escritor norte-americano Henry Miller, “nenhuma ousadia é fatal”. O ato de bravura de Maria Quitéria teria o reconhecimento do imperador Dom Pedro I, que lhe concederia a Imperial Ordem do Cruzeiro. Na ocasião, ela pediu ao imperador uma carta, solicitando ao pai que a perdoasse por sua desobediência.

O final da vida da heroína da independência é obscuro. As informações são imprecisas. Sabe-se que, perdoada pelo pai, Maria Quitéria casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, o antigo namorado, com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Depois de desistir do inventário do pai, por causa da burocracia, teria vindo morar com a filha em Salvador,onde morreria quase cega aos 61 anos. Até hoje não se sabe o local de seu túmulo.

A vida heróica de Maria Quitéria pode ter tido até um final trágico. Mas o importante é o exemplo de coragem e determinação dado por ela, ao semear em nosso país a luta pela emancipação feminina. Maria Quitéria não foi só a heroína da independência nacional. Ela deu o grito de independência da mulher brasileira.

A atitude de Maria Quitéria, ampliando os horizontes femininos, se reflete hoje na crescente participação feminina no comando empresarial brasileiro. As mulheres já presidem um número significativo de empresas no Brasil.

A preconceituosa denominação de sexo frágil não cabe a Maria Quitéria nem a nenhuma mulher. As mulheres representam metade da população e da força produtiva, e um terço de todas as famílias do mundo é chefiado por mães.

O toque feminino não deve faltar neste momento singular de nosso país, quando finalmente encontramos o caminho do crescimento de maneira estável. A liderança feminina sabe combinar harmoniosamente lógica e intuição, emoção e inteligência, elementos indispensáveis às decisões que devem nos ajudar a vencer o desafio da sustentabilidade.

Artigo publicado no jornal A Tarde desta terça-feira (29/4)