Artigo: O ovo da serpente

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A recente greve da Polícia Militar trouxe à tona aspectos bárbaros de nossa sociedade. Quem assistiu na tevê, viu nas páginas dos jornais ou no youtube os flagrantes ou até mesmo presenciou pessoalmente as cenas de saques e arrombamentos a lojas e supermercados em plena luz do dia, certamente, deve ter indagado a si mesmo: O que está motivando comportamentos tão irracionais e anticivilizatórios ultimamente em nosso País e, em especial, em nossa Bahia?

Faço uma analogia, na condição de engenheiro eletricista, com a eletricidade para argumentar que a greve da Polícia Militar não justifica a barbárie que vivemos na semana passada, quando, além dos saques, em 48 horas, mais de 300 pessoas foram baleadas e outras 100 assassinadas em nosso estado.

Na eletricidade, a ausência, por si só, dos dispositivos de proteção dos sistemas elétricos, não provoca o comportamento anormal dos mesmos. Em sua devida proporção, entendo que numa sociedade civilizada em situação de paz, sem conflito externo, também não caberia reações da monta que se viu na Bahia.

Um especialista em sociologia certamente estaria mais habilitado a avaliar esse fenômeno de barbárie se manifestando em pleno Século XXI. As distorções de um processo civilizatório eivado de desigualdades sociais poderiam ser argumentos pertinentes. No entanto, o que me vem à lembrança é o filme “O ovo da serpente”, do diretor sueco Ingmar Bergman.

A película retrata uma sociedade à beira do caos econômico e político. Demonstra como, sob essas circunstâncias, é possível ver os contornos do nascente movimento fascista. As cenas mostrando as ruas miseráveis de Berlim, em 1923, são para nunca mais esquecer, assim como não consigo esquecer as cenas de arrombamentos e saques às lojas, durante a greve, vistas na tevê e internet. Estamos no fim de um ciclo ou à beira do caos bolivariano, ao estilo da Venezuela de agora?

O dia-a-dia das nossas cidades já não é de normalidade. As manifestações desordenadas, que, com muita frequência, descambam para a violência e vandalismo, misturam o descontentamento e a falta de esperança com o crime organizado. Ônibus são destruídos e queimados. O trânsito é interrompido. Ficamos a mercê de manifestantes, que não respondem por nada, como se fosse norma perturbar a ordem pública, quebrar, saquear e queimar as coisas da cidade.

O povo está cansado de ser enganado. Ver nas propagandas pagas com o seu próprio dinheiro uma realidade fantástica de que não consegue desfrutar para educar os seus filhos, para curar as suas doenças e nem mesmo para ir e vir do trabalho em paz e segurança. Restaurar a credibilidade e a autoridade dos governos é o caminho para encerrarmos este ciclo populista que se esgotou com o vencimento das promessas não cumpridas e com o enfraquecimento das instituições.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 23 de abril de 2014