Artigo: O povo não é bobo

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A Copa do Mundo chega aos momentos finais. Nesta terça-feira, serão defini-dos os finalistas. A nossa Seleção encara os alemães, que tão bem se aclimataram à Terra Brasilis. Holandeses e argentinos decidem a outra vaga. Sem Neymar, a gente torce para que o desfecho seja o de 1962, quando, no Chile, sem Pelé, também contundido, o Brasil levantou pela segunda vez o caneco. Desta vez, conquistaremos o sexto, o hexa!

O futebol não sai da cabeça. Não há brasileiro que fuja desta sina. Até o próximo domingo, a pátria estará de chuteiras, como diria o escritor Nelson Rodrigues. Na expectativa do embate com os alemães, meu pensamento se desvencilha da bola. Talvez, numa reação natural de relaxamento, se volta para um assunto completamente diferente, mas pertinente.

Lembro que, até metade do século XIX, ninguém se atrevia a questionar o fato de a estrutura lógica da mente ser imutável e comum a todos os seres humanos. É essa estrutura racional comum a todos que possibilita a comunicação, a argumentação e a discussão. Era assim até o filósofo alemão Karl Marx apresentar ao mundo a ideia do “polilogismo de classes”. Penso nesse palavrão como a joelhada do colombiano Zuñiga, que tirou Neymar da Copa. Essa ideia foi criticada e denunciada pelo economista austríaco Ludwig von Mises, em 1944, o que mostra quanto é ultrapassada essa tática.

De acordo com o polilogismo, o pensamento é determinado pela classe social, ou seja, sempre refletirá os interesses egoístas da classe à qual o pensador pertence. Nessa ótica, não existiria indivíduo pensante, apenas vontades de grupos. Se uma ideia é apresentada, o opositor não precisa atacar o mérito, basta denunciar a origem social, em outras palavras: não ataque o argumento e, sim, o argumentador. Fazendo analogia com o futebol, elimine o craque para vencer o time.

Essa tática é absurda tanto na filosofia, retórica, política ou futebol. Quando aplicada, o resultado é uma divisão irracional da sociedade. Inviabiliza qualquer tipo de debate coerente e corrompe os significados em todas as áreas do conhecimento. Amparar a dialética nela é resumi-la ao denuncismo de classe.

O que impressiona é que, por mais arcaica e ultrapassada que pareça ser essa ideia, ela vem sendo constantemente utilizada no nosso debate político. Não tem sido raro recorrer aos chavões, como “elite branca de olhos azuis” ou “gente bonita que sempre comeu”, com o intuito de dividir as pessoas e se defender sem precisar entrar no mérito das questões. Esse modus operandi tem sido constante no debate nacional e já é possível ver que certamente acontecerá novamente aqui na Bahia.

Já vimos esse filme nas eleições para prefeito em 2012. O povo não é bobo e disse não à tentativa de convencê-lo através do discurso do “alinhamento” com o governo federal, uma espécie de chantagem antirrepublicana. Agora, o discurso irracional volta a cartaz. Em vez de o debate evoluir, ocorre exatamente o contrário.

A falta de segurança em nosso estado afeta a todos indistintamente. Em sete anos e meio, mais de 36 mil baianos foram assassinados, um verdadeiro genocídio, cujo trágico número de vítimas supera guerras contemporâneas. Por que não debater essa crucial questão com reflexos em toda a sociedade, assim como a saúde e a educação, que não apresentam níveis mínimos de qualidade?

Quando se tenta discutir a deficiência da prestação desses serviços públicos essenciais pelo atual governo, prevalece a retórica vazia da “herança maldita”. Culpa-se quem deixou o poder há quase uma década. É uma política que se mira no retrovisor, quando deveria olhar para a frente, pensar o futuro da Bahia.

Afinal, o que desejamos para o futuro de nosso estado? Com certeza, é avançar, criar as condições necessárias ao desenvolvimento social e econômico de nosso povo. Portanto, não podemos prescindir de um estado que cumpra as obrigações básicas de prover uma saúde digna, uma educação de qualidade e garantir a segurança pública. O primeiro passo, então, para isso é amadurecer o nosso debate político.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 08/07/14