Artigo: O time de Messi resistirá à crise argentina?

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Em tempos de Copa do Mundo em nosso Brasil tropical, a cabeça fervilha e os pensamentos pululam. Por curiosidade natural, sempre acompanhamos de perto as seleções de nossos vizinhos da América do Sul. Não poderia ser diferente desta vez, quando, em campos brasileiros, Colômbia, Argentina, Uruguai, e a maior surpresa até o momento, o Chile, demonstram grande competitividade e potencial de chegar longe no torneio mundial.

O momento nos inspira a refletir como a história dessa região vem sendo escrita nas últimas décadas. É uma pista de extrema utilidade para enxergarmos erros e acertos do Brasil. “A prudência é a rainha das virtudes”, já dizia São Tomás de Aquino, inspirado em Aristóteles. Ela usa a razão para discernir, em todas as circunstâncias, o verdadeiro bem e escolher os justos meios para atingi-lo. É dela o papel de conduzir as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. Deve, portanto, servir de guia para a política.

A última década para a América do Sul será conhecida, no entanto, como a da arrogância do conhecimento. Os desastres econômicos da Venezuela e da Argentina são resultados disso. Excesso de planejamento, economia planificada, bancos de fomento estruturando um pseudocapitalismo dos amigos do rei, malabarismos heterodoxos nas políticas monetárias e protecionismo excessivo culminaram em uma hecatombe sem tamanho nesses países. A Argentina deve registrar esse ano um PIB negativo, com uma inflação da ordem de 40% no período de 12 meses. Em pleno Século XXI, a Venezuela sofre com racionamento de alimentos e o papel higiênico virou artigo de luxo.

No Brasil, em menor grau de gravidade ainda, a dupla formada pela presidente Dilma Rousseff e seu ministro Guido Mantega também escolheu esse caminho. Aqui temos exemplos clássicos da confusão que o planejamento arrogante causa, como setor elétrico desestrutura, a Petrobras financeiramente quebrada, depois de virar um mecanismo equivocado de política monetária, BNDES inconsequente, etc.

Esses problemas poderiam ser evitados com um breve estudo das ideias do economista austríaco Ludwig von Mises. São ideias apresentas por ele em 1922, coincidentemente o ano em que o Brasil comemorava o centenário da independência nacional. Naquela época, ele já explicava como a “onisciência platonicista” resultou nos maiores desastres da humanidade. Breves leituras e um pouco de prudência evitaria tudo isso.

O fato é que os defensores de ideologias radicais na política comportam-se como as equipes que, diante de um resultado inicial ligeiramente desfavorável, lançam-se em busca do gol sem se preocupar com as consequências desse ato imprudente. Por causa disso, foram vitimadas por acachapantes goleadas as seleções da Espanha, Portugal e Suíça.

A presidente Cristina Kirchner deixaria a economia de seu país em situação bem melhor na atualidade, se reproduzisse na política a bem-sucedida e prudente estratégia aplicadas pelos jogadores da seleção argentina nos gramados da Copa do Mundo sob a batuta do craque Messe. Souberam ter prudência e tranquilidade para conquistar as vitórias da classificação no momento certo. O radicalismo e a arrogância do conhecimento sempre andam juntos, como irmãos siameses. Na política não é diferente. A Europa do pós-guerra foi, em essência, reconstruída sobre os pilares dos valores essenciais para a convivência harmônica nas sociedades modernas. Isso tem sido fundamental para aliviar as tensões naturais que não param de germinar do relacionamento entre economia e sociedade.

A prudência era que o político ideal deveria usar para estruturar uma sociedade harmônica. As seleções da América do Sul têm obtido bons resultados se guiando por ela, a “rainha das virtudes”. Esta primeira fase, afora o Equador, foi marcada por seleções bem estruturadas. Prudência no futebol que falta na política.

Artigo originalmente publicado no jornal A Tarde do dia 26/06/2014