Artigo: O trabalhador perdeu

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O governo usou a Petrobrás como cabide de emprego e o valor da ação caiu.

Perdeu dinheiro o trabalhador que usou seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para comprar ações da Petrobrás e ti­nha R$ 1.000 aplicados em mar­ço de 2002, quando a cotação era de R$ 61,30 por ação. Em junho deste ano, a ação, que deveria custar R$ 80,24, se atualizada pela taxa de inflação medida pelo IGP-DI, era co­tada em R$ 55,60.

A perda foi de 24,60% no poder de com­pra do investidor. Os R$ 1.000 – que deve­riam valer pelo menos R$ 1.314,70 – enco­lheram para meros R$ 99 Se os mesmos R$ 1.000 permanecessem depositados no FGTS durante igual período, renderiam 12,72% (taxa referencial, a TR, mais juros de 3% ao ano) ou R$ 272, garantindo um sal­do de R$ 1.272.

No dia 21 de julho, a cotação dos papéis Petrobrás ON na Bovespa, que representam o grosso dos investimentos feitos com as economias do FGTS, era de R$ 61. Pratica­mente a mesma de março de 2002. Números do Banco do Brasil mostram que não houve valorização real das ações da Petrobrás; apenas uma recuperação lenta e gradual do preço antigo.

Há dias, um integrante da base do governo na Câmara, esforçado defensor da nova administração da Petrobrás, alardeou a versão de que as ações da companhia estatal valorizaram

22% entre 31 de dezembro de 2002 e 14 de julho. Ele não disse onde encontrou tal número, mas se tivesse, por exemplo, consultado o Banco do Brasil descobriria que os dados ofi­ciais indicam que essa valorização – cujo nome corre­to é reposição de perdas – foi de 19,26% ao longo deste ano.

Diante de números tão distintos, seria razoável supor que alguém anda “superfaturando” as cotações dos papéis da Petrobras na tentativa de vender ilusões.

Na verdade, os 310.218 trabalhadores que trocaram parte do FGTS por ações da Petrobras perderam rendimentos, porque os pa­péis da estatal vêm se recuperando a passos de tartaruga, se comparados aos de outras empresas que freqüentam o pregão da Bo­vespa. Nos primeiros seis meses deste ano, por exemplo, os papéis Petrobras ON valori­zaram 13,97%, enquanto as 50 ações de maior liquidez da Bovespa subiram 21 % e as da Telemar 30%.

A explicação para esse fraco desempenho é a opção do governo Lula por transformar a Petrobras em cabide de emprego do sindi­calismo de palácio, distribuindo cargos pa­ra aliados derrotados nas eleições e presen­teando com chefias de departamentos es­tratégicos “companheiros” sem experiência administrativa. Enquanto técnicos de reco­nhecida competência eram substituídos por protegidos do Palácio do Planalto, o mer­cado reagia levando ao pé da letra o velho ditado popular: “Diga-me com quem an­das e eu te direi quem és”.

Analistas de dois dos maiores bancos do país atribuem ao chamado “risco governo” o fraco desempenho dos papéis da companhia. Entre os fatores apontados, estão a decisão de reduzir a participação da Petrobras no mercado internacional, o que diminui a receita em dólares e prejudica o acesso ao mercado financeiro externo, além da falta de entendimento da atual diretoria com o mercado, da inexperiência dos atuais dirigentes e da incontinência verbal de certas autoridades federais sobre a política de pre­ços dos combustíveis.

A conta de tamanha barbeiragem adminis­trativa vem sendo paga pelos acionistas, principalmente os trabalhadores, cujas ações acabaram rendendo menos que os depósitos do FGTS.

Artigo originalmente publicado na Revista Época de 27/07/03