Artigo: Por que chorar pela educação?

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As transformações que a educação pública de qualidade podem fazer pelas pessoas, tornando-as mais produtivas e úteis à sociedade, foram constatadas por mim dentro da minha família. Nascidos e criados no bairro popular da Caixa D’Água, num ambiente familiar de classe média, eu e meus dois irmãos concluímos a nossa formação fundamental e média em estabelecimentos públicos de ensino.

Tivemos professores de educação física que eram preparadores do físico e do caráter. Os mestres Pinto e Hamilton nos levavam às Olimpíadas da Primavera como se fôssemos disputar a Copa do Mundo de futebol. O templo das competições era o Ginásio Antonio Balbino, o Balbininho, que o governador Jaques Wagner ainda nos deve de volta.

Nossos professores eram homens e mulheres que nos inspiravam. O professor Valton Pessoa nos ensinava inglês e matemática e, de quebra, comportamento. A outra professora da língua de Shakespeare que nos ensinava no Iceia era uma elegante senhora, uma das diretoras da Ebec, uma das principais escolas de inglês da cidade.

No que hoje se denomina oitava série, interpretávamos as Fábulas de Esopo em latim, orientados pelo professor Oto. Alemão, vivendo em Salvador no pós-guerra, ele nos deixou muitas lições. Recomendava que ficássemos distantes das ditaduras de ambos os extremos.

A língua portuguesa era sagrada. O meu irmão mais velho era virtuoso nela. Eu, que era o filho do meio de três marmanjos, gostava mais das exatas. Todo dia era dia de conta e de leitura. Álgebra pra valer, com equações de segundo grau e sistemas de equações. Na língua portuguesa, líamos e interpretávamos de José de Alencar a Graciliano Ramos, ainda no ginásio.

E a disciplina? A escola pública tinha ordem e todos a respeitavam. Não me recordo de um só colega expulso ou muitos suspensos. O saldo era muito positivo. A ordem não era espartana, mas muito dura. Fico satisfeito que tenha sido assim, pois logo cedo aprendi a importância de respeitar os limites.

Por que chorar pela educação? Os jovens da Bahia não são inferiores aos de São Paulo, nem estes aos mexicanos. Mas por que os exames internacionais colocam a Bahia tão abaixo de São Paulo e os paulistas inferiores aos mexicanos? Educação exige dedicação, amor e persistência do aluno, da família e também dos professores. Exige também vergonha dos governantes.

Prioridade! Somente prioridade! Para recordar o “powerline” da campanha de Obama, nós deveríamos dizer: “Yes, we can!”. Nós podemos melhorar e rápido. Prioridade é o que nos falta. Por que chorar pela educação?

As longas viagens são um cesto de limão, que podem render um barril de limonada. Em uma recente jornada entre São Paulo e Madri, deixei de lado O Lobo de Wall Street e finquei os olhos no livro de Thomas Piketty, Capital in the Twenty-First Century, que espero ver traduzido para a língua de Camões. Com alegria, pelas possibilidades de atingir, e com tristeza, por estarmos distantes, li a seguinte conclusão:

“As principais forças para a convergência (redução da desigualdade) são a difusão do conhecimento, assim como a mobilidade do capital e do trabalho. A difusão do conhecimento e do treinamento é a chave para se atingir o crescimento da produtividade, bem como a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles. A principal força para a redução das desigualdades –a difusão do conhecimento – é apenas parcialmente espontânea. Ela é também fortemente dependente da política educacional, do acesso ao treinamento e a aquisição das habilidades, bem como das instituições associadas.”

Quando vamos parar de chorar pela educação? Para mim, basta que se valorizem o aprendizado e o professor como figura chave para o ensino. Não para os partidos. Fazer política partidária com a educação deve ser enquadrado no Código Penal. Pagar bem aos professores deve ser um dever do estado, não uma simples conquista. Professores bem remunerados e motivados, ao lado das famílias, podem fazer uma revolução. Educação de qualidade para todos, não só luz e casa, podem nos levar ao “fome zero”.