Artigo (A Tarde): Sem ódio no coração

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Dois líderes das maiores potências mundiais, Barack Obama e Angela Merkel sinalizaram a necessidade premente de superarmos a “era dos extremos” nesta virada de 2014 para 2015. O presidente norte-americano restabeleceu a relação diplomática entre Estados Unidos e Cuba, deixando para trás mais de meio século de radicalismos ideológicos. A premier alemã reagiu veementemente contra o preconceito e “ódio no coração” incitados por aqueles que comandam um movimento anti-imigratório e anti-islâmico na Alemanha.

Os exemplos que nos chegam de Obama e Merkel indicam que os extremismos, tanto de direita quanto de esquerda, são caminhos que desviam o objetivo da política. Simploriamente definida como “a arte do possível”, a política não chega a lugar nenhum, quando envereda pela seara do radicalismo. “Dois duros não levantam muro”, diz o ditado popular. Tradicionais filosofias orientais, no entanto, há milênios falam do “caminho do meio”, “madhyama pratipad” em sânscrito, como a direção a ser tomada para o alcance da sabedoria.

Na política, a sabedoria se manifesta na solução inteligente, ética, transparente e pacífica dos problemas coletivos. Os recados de Obama e Merkel na aurora deste novo ano resgatam esse propósito. Infelizmente não podemos comemorar nenhum gesto nesse sentido entre nossos governantes. Muito pelo contrário. O momento é de lástima.

Depois de uma acirrada disputa eleitoral no plano nacional, quando, durante a campanha, tantas promessas e compromissos foram propagados e assumidos, o que se vê agora no ano novo é o exercício contumaz e deletério de uma política velha, ultrapassada e sem compromisso com a verdade em nosso país. Depois de atacar e vencer o adversário, acusando-o de que ele, se eleito, seria o autor de inúmeras maldades, a presidente reeleita Dilma Rousseff faz tudo de pior que reclamara do oponente, num verdadeiro estelionato eleitoral.

Representante do PT, Dilma não se intimidou em solapar os direitos dos trabalhadores, aqueles que fundaram o seu partido, quando se viu diante do rombo nas finanças do estado, causado pela sua irresponsável gestão e tão dispendiosa reeleição. Não pestanejou em reduzir à metade a pensão da viúva, cujo marido trabalhador morrer num assalto banal. Preferiu botar a conta no bolso do trabalhador, em vez de diminuir o número de ministérios, onde acolhe seus aliados políticos, o que certamente também lhe garantiria expressiva contenção de despesas.

Se precisa economizar os recursos públicos para fechar as contas, a presidente Dilma Rousseff não poupa as maldades que imputava ao adversário Aécio Neves na campanha eleitoral. Neste ano que se prenuncia difícil, devido a tantas barbeiragens na condução governamental, a expectativa é de redução da atividade econômica e aumento do desemprego. Vislumbrando o crescimento das despesas com o seguro-desemprego, o que fez a presidente Dilma? Impiedosamente, criou dificuldades à concessão desse benefício social, aumentando o prazo mínimo de contribuição para acesso ao direito. O mesmo aconteceu com o abono salarial e com o salário-defeso dos pescadores.

Defendido com tanta exaltação como uma conquista dos governos do PT, que estaria ameaçada com a eleição de Aécio, o Prouni não ficou de fora do pacote de maldades da presidente. O programa federal não concederá mais bolsas de estudos com 100%. No máximo, 50%. Agora os estudantes terão que arcar com metade do valor das mensalidades, podendo financiar esse montante pelo Fies desde que alcance o mínimo de 450 pontos no Enem.

Temos o desafio em 2015 de iniciar um processo de regeneração da política brasileira. Virar a página de um tempo em que as campanhas eleitorais são transformadas num vale tudo para conquistar votos sem nenhum compromisso ético e moral com os eleitores. Dar um basta nos petrolões que são consequências disto. Precisamos dar exemplos de estarmos na direção dos novos ventos que sopram na política mundial.