Artigo: O Desmonte da Petrobras

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A Petrobras comemora neste ano meio século de existência. Desde que foi criada, pelo presidente Getúlio Vargas, a empresa faz parte do cotidiano dos brasileiros. Do gás de cozinha, que aquece nossas refeições, ao diesel, que move nossa frota de ônibus e caminhões, passando pela gasolina e até um simples saco plástico ou embalagem de refrigerante, a Petrobras está presente em cada lar, em cada esquina, nos produtos mais simples, transformando petróleo bruto em desenvolvimento econômico e bem-estar social.

Nestes 50 anos, a companhia foi responsável pela geração de milhões de empregos. Eles fazem parte de uma extensa malha, que inclui desde o petroleiro que arranca o óleo das profundezas da terra e do mar, o operário qualificado da indústria petroquímica, os engenheiros que comandam refinarias, o frentista do posto de gasolina, o motorista de caminhão, os comerciantes, até os executivos do mercado de capitais. A Petrobras é o combustível do nosso desenvolvimento. A partir da Petrobras, o Brasil pesquisou e desenvolveu tecnologia mundialmente pioneira de prospecção de óleo em águas profundas, entrou no mercado de fertilizantes e matérias-primas para os mais diversos segmentos da indústria.

Se há no país uma empresa que integra a espinha dorsal da dignidade nacional, é a Petrobras. O Brasil é um dos mais importantes “players” internacionais do sofisticado mercado de petróleo.

O governo FHC deu um passo histórico, ao permitir que os trabalhadores usassem o dinheiro do FGTS para comprar ações da Petrobras. Nada menos do que 310.218 trabalhadores decidiram investir em busca de segurança e rentabilidade. Eles seguiram o caminho de milhares de outros investidores e tornaram-se sócios da companhia.
A Petrobras vive hoje um momento sombrio, que ameaça a sua reputação de competência e eficiência. O sonho de centenas de milhares de investidores corre o risco de virar um pesadelo.

Embalada pelo ritmo administrativo do governo passado, a Petrobras registrou um lucro recorde de R$ 5,5 bilhões no primeiro trimestre. Embora seja uma marca histórica, os trabalhadores que investiram o dinheiro do FGTS não têm o que comemorar. O novo governo está transformando a Petrobras num cabide de emprego do sindicalismo petista.

O primeiro passo foi dado pelo presidente da República, ao nomear para a presidência da Petrobras o ex-sindicalista e ex-senador José Eduardo Dutra, candidato do PT ao governo de Sergipe, derrotado por João Alves, do PFL. Sem experiência administrativa, Dutra recebeu o cargo como prêmio de consolação pelo fraco desempenho eleitoral. Mal acomodou-se na cadeira de presidente, iniciou um desmonte na administração da estatal. Num desrespeito aos acionistas – principalmente aos mais de 300 mil trabalhadores que trocaram o FGTS por ações-, técnicos competentes e com larga experiência são substituídos por sindicalistas, que não têm intimidade com a rotina de tarefas sofisticadas e complexas, para as quais é necessário preparo e experiência.

Um exemplo da balbúrdia administrativa criada por Dutra: afastado há dez anos da Petrobras e dedicado a atividades classistas, o engenheiro Antônio José Pinheiro Rivas foi nomeado gerente-geral da unidade da Bahia. Do dia para a noite passou a comandar 20 mil funcionários. Quem indicou Rivas? Petroleiros do sindicado baiano. No currículo de Rivas, segundo a revista “Exame”, não consta experiência administrativa na Petrobras.
Há outros exemplos para ilustrar o desmanche promovido por Dutra, que distribui cargos de chefia e bons salários a uma casta privilegiada de sindicalistas. Transformaram cargos estratégicos em sinecuras. Se o presidente da República quer ajudar amigos sem competência profissional, a Petrobras não pode ser o desaguadouro. É inaceitável transformar a mais importante estatal brasileira em sinecura.

O mais surpreendente é o pensamento do diretor de exploração e produção, Guilherme Estrella, para quem acionista da empresa não passa de especulador. Há dez anos o senhor Estrella vestiu o pijama da aposentadoria e matou o tempo presidindo o microscópico diretório do PT de Nova Friburgo, no Estado do Rio. Premiado com uma diretoria, cujo orçamento para investimentos, em 2003, chega a R$ 6 bilhões (maior investimento do que o da maioria dos municípios brasileiros), trocou o pijama pela gravata e seguiu à risca o desmonte iniciado por Dutra.

Como consequência desse desatino, Dutra e seus companheiros comprometem a alma da Petrobras. Não é por acaso que o mercado de capitais reagiu negativamente e as ações da empresa não tiveram a valorização esperada, mesmo com lucro recorde. Qualquer estagiário de Bolsa de Valores sabe que o estilo imposto por José Eduardo Dutra é de alto risco, semeia o nervosismo, tanto na Bovespa como em Wall Street, e favorece concorrentes estrangeiros ávidos por quebrar a hegemonia da Petrobras no nosso mercado interno. No jargão do mercado, essa situação criada pelo PT é rotulada de crise de confiança.

Os 310.218 trabalhadores que investiram nas ações da companhia, utilizando o FGTS, acreditavam que ela jamais sairia dos trilhos da seriedade administrativa. Não podem, como os demais acionistas, serem ameaçados por uma gestão temerária, que tem como único objetivo usar a companhia para criar um grande aparelho do sindicalismo de palácio. Não é honesto que se transforme em pesadelo o sonho de quem confiou e trabalhou pelo sucesso da Petrobras durante meio século.