“A economia e a arrogância derrubaram Dilma”, afirma Aleluia

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Presidente do Democratas na Bahia, o deputado federal José Carlos Aleluia avalia que o governo do presidente interino Michel Temer (PMDB) será mais “estável” com a conclusão do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.

O parlamentar democrata reconhece que a situação do país ainda é difícil, mas entende que o peemedebista tem tido “habilidade” para driblar a crise. Na avaliação dele, a economia e a arrogância derrubaram a presidente Dilma. Ele não acredita na possibilidade da petista retornar ao poder. “Isso inimaginável. Os senadores não andariam nas ruas. Ninguém pensa em retrocesso”, ressalta. Nesta entrevista exclusiva à Tribuna, Aleluia fala ainda sobre as administrações do prefeito ACM Neto e do governador Rui Costa.
Confira entrevista completa

Tribuna – Deputado, o jogo virou. Como avalia o momento tenso da política do Brasil?
José Carlos Aleluia – Momento difícil porque as instituições estão sendo testadas ao extremo. No Poder Legislativo, temos uma Casa do Povo que é Câmara sem presidente. E com uma crise profunda de identidade, tendo manobras que não são nada republicanas. No Senado, também temos uma situação complicada, pois se discute a cassação da presidente afastada Dilma. Também tem um presidente e outros senadores sendo acusados. Portanto, temos um Legislativo muito estressado e com uma responsabilidade muito grande. Além disso, tem uma desconfiança grande da população. No Executivo, há um governo provisório com um presidente que tem se esforçado. Resta o Judiciário, que tem tido um papel de presidente em um Parlamentarismo, avaliando as instituições. Então, é um momento extremamente difícil, com uma crise econômica herdada do governo passado. Além de tudo, as empresas privadas também foram contaminadas com esse período. Mas, sou otimista, porque mesmo em dificuldade as instituições estão funcionando.

Tribuna – Como vê esse loteamento político que parece marcar o começo do governo Temer? Uma repetição de erros?
Aleluia – No caso específico, existem erros sim. O sistema é inevitável. O presidente ainda vive uma interinidade e tem uma dependência muito grande do Parlamento, sobretudo, do Senado. Vemos o comportamento de alguns senadores que são condenáveis, dizendo que podem mudar de posição sobre o impeachment. É uma atitude que, em alguns casos, beira a chantagem. O governo do presidente Temer conseguirá fazer um governo mais estável quando se concluir o processo de cassação de Dilma.

Tribuna – Como avalia essa divisão de cargos entre os parlamentares baianos?
Aleluia – Temos algumas pendências, mas não que seja contornável. O importante é que cada um indique pessoas que possam exercer bem o cargo.
Tribuna – O Democratas avaliza e está satisfeito com os primeiros 30 dias do governo Temer?
Aleluia – O Democratas está apoiando o governo. O presidente tomou medidas extremamente importantes, montando uma equipe na área econômica respeitável. Ele tem uma visão multilateral, tirando da pauta a imagem do Brasil visto por um único partido. Agora, temos o Brasil em primeiro lugar. Isso tem reflexo positivo nas relações diplomáticas e econômicas. Temos sinais bons no Ministério da Justiça no sentido de defender a ordem e combater o crime, que afligem as pessoas. Tem problemas ainda e vão surgir outros. O momento é difícil e delicado, mas o presidente tem tido habilidade.

Tribuna – Teme que com o governo Temer, sem dar as respostas tão aguardadas pelo povo, veja o crescimento dos movimentos sociais a ponto de atrapalhar a gestão peemedebista?
Aleluia – Os movimentos sociais eram alimentados pelos recursos do governo [da presidente Dilma]. São importantes quando voltarem a ser movimentos sociais e não partidários. O governo tem que conviver com os movimentos sociais e respeitar, mas exigir que andem na lei. Acho que é isso que o presidente fará e não tenho nenhum receio neste sentido.

Tribuna – Na visão do senhor, foi a política, a economia ou a roubalheira que derrubou a presidente Dilma?
Aleluia – O que derrubou a presidente Dilma foi a economia e a arrogância. Acho que a mesma arrogância que derrubou o presidente Collor. A roubalheira teria derrubado antes, porque não começou no governo dela. Então, não foi a roubalheira que derrubou. Foi uma arrogância e a econômica no conjunto das coisas. Foi fraca politicamente e não soube conter o crime organizado dentro do governo. A queda foi resultado de um conjunto de coisas.

Tribuna – Acredita que Dilma consiga retornar ao poder, após julgamento do Senado e STF?
Aleluia – Isso inimaginável. Os senadores não andariam nas ruas. Ninguém pensa em retrocesso. É claro que o partido da presidente Dilma continua insistindo. Ela foi a grande responsável por levar o partido para essa situação.

Tribuna – A Lava Jato só acaba depois de prender Lula e Dilma? Isso pode acontecer de fato?
Aleluia – Seria pensar muito pouco. Não sei se Lula e Dilma serão presos. Mas a Lava Jato só tem que acabar depois que apurar tudo e punir todos os envolvidos. Todos. Não só os ex-presidentes, mas os parlamentares, ministros, governadores, empresários, quem tiver culpa. O Brasil é outro a cada dia.

Tribuna – O DEM, PSDB e PSB sentam à mesa com o PR e PCdoB para expurgar Cunha. Ele é tão forte assim?
Aleluia – Ele é muito forte. Fui um dos responsáveis por essa reunião. Há muito tempo venho conversando com o PT sobre a importância de ter uma Câmara independente, que restaure a dignidade do Poder Legislativo. Conversamos com PCdoB e partidos menores da esquerda. É importante a esquerda entender que não é bom para ninguém ter um presidente oculto [Cunha] mandando na Câmara.

Tribuna – A permanência de Waldir Maranhão causa mal-estar na Câmara?
Aleluia – A vacância não declarada do presidente afastado causa mais mal-estar do que a presença de Waldir Maranhão. Maranhão demonstra apenas que não tem capacidade de atuar bem, mas mesmo se tivesse, eu defenderia a vacância porque a Câmara não pode ficar sem presidente. Quem não é deputado não pode ser presidente da Câmara, e Eduardo Cunha está afastado do mandato, então não pode ser. E qualquer vice-presidente não representaria bem a Câmara.

Tribuna – O senhor se anima com a possibilidade de novas eleições ainda este ano?
Aleluia – Isso é golpe. A Constituição não prevê isso. A única hipótese de ter eleição é o Tribunal Superior Eleitoral cassar a chapa completa. Não há como o Parlamento tomar essa posição. Isso é golpe.

Tribuna – O senhor e seu partido vão com Temer para o que der e vier?
Aleluia – Estamos apoiando o presidente Michel Temer, que tem feito um governo de transição para restaurar a seriedade e recuperar a economia. Somos avalistas do governo, mas não vamos patrocinar e nem apoiar nada que seja contra o povo brasileiro.

Tribuna – O PT vai sofrer impactos com toda essa crise já na próxima eleição?
Aleluia – É claro que o PT vai se organizar. Vão surgir lideranças, porque conheço bem o partido. O partido diverge de mim, mas tenho respeito. Não cometeria o mesmo erro que Lula cometeu com o Democratas ao afirma que o partido seria extirpado. O PT não será extirpado. Vai ser como todo partido que perde o poder e se renova.
Tribuna – Como avalia a reeleição do prefeito ACM Neto?
Aleluia – É uma reeleição bastante provável, mas que não dispensa uma campanha e continuidade do trabalho. Ele tem uma aliança ampla e um governo muito bom. Acho que fará uma eleição muito bonita.

Tribuna – Há risco de ele não sair candidato à reeleição?
Aleluia – Não acredito nisso. Acho que a candidatura é um pedido e um clamor do povo de Salvador. Ele dificilmente vai abrir mão disso. Ele está bem de saúde e tem uma boa equipe de governo.

Tribuna – O que diferencia o governo de Neto da gestão do governador Rui Costa?
Aleluia – O governo de Neto se sustenta com as próprias pernas. Pegou um governo em dificuldade. Herança do ex-prefeito. Como não tinha onde buscar apoio, teve que adotar uma política muito austera na área de arrecadação. Ele ajustou a máquina de arrecadação, possibilitando ser autossustentável. Praticamente, não recebeu nada do governo estadual e federal. Então, é um governo planejado. Rui Costa teve mais dificuldade de fazer isso, porque participou do governo anterior [se referindo a Jaques Wagner]. Então o ajuste dele foi mais periférico. Fez alguns ajustes, que acho correto, mas não aprofundou. É uma gestão que sempre dependeu do governo federal. Vai sofrer agora um pouco pela aliança profunda que tinha com o governo federal.

Tribuna – O que tem de erros e acertos no governo Rui?
Aleluia – A principal dificuldade dele foi não ter podido mudar muito a orientação porque participou do governo anterior. O governo dele então foi iniciado no passado. Não se estruturou em algumas áreas vitais, como a de segurança pública. Não conseguiu apresentar nessa área resultados visíveis. Tem problemas também na área de educação. Não tem novidade. Os testes mostram que a Bahia não evoluiu nessa área. É um governo que tem burocracia e é muito aparelho por partido. Portanto, é pesado e caro.

Tribuna – O crescimento de Geddel incomoda e atrapalha os planos do DEM no estado?
Aleluia – Tem cumprido o papel dele no âmbito federal. As pesquisas não mostram nem crescimento e nem queda do ministro. É aliado nosso. A principal liderança hoje na Bahia é ACM Neto. Agora, o apoio do PMDB é importante. Torço para que o ministro faça um bom trabalho.
Tribuna – Qual a meta do Democratas nas eleições deste ano?
Aleluia – A próxima eleição o partido fará um grande número de prefeitos. A meta é ser o partido com mais votos. Estaremos disputando as eleições em cidades estratégicas e importantes, como Salvador, Feira de Santana, Itabuna, Alagoinhas, Camaçari, Luís Eduardo… O partido está bem de situação. A estratégia foi organizar os partidos nos municípios, renovando com gente nova. Tenho alegria muito grande quando vejo os jovens buscando o Democratas.
Tribuna – Em relação à Câmara de Salvador, qual é a expectativa?
Aleluia – Os aliados do prefeito ACM Neto farão uma maioria confortável. Vai ter renovação sim. A população vai olhar mais o papel do vereador, que tem um elo importante com comunidade e administração municipal. Aqueles que só atacaram o prefeito, batendo no vazio, terão dificuldades de se reeleger.

Osvaldo Lyra e Paulo Roberto Sampaio – Tribuna da Bahia
Colaboraram Fernanda Chagas e Rodrigo Daniel Silva